Sempre que leio “humor inteligente” meu cérebro associa imediatamente o termo ao patético “politicamente correto”. Porém, minha definição de humor inteligente foi atualizada ao terminar de assistir a primeira temporada de “Master of None”, série original do Netflix escrita, dirigida e estrelada pelo comediante Aziz Ansari.

Em todas minhas dezenas de milhares de horas gastas assistindo séries, “Master of None” foi a primeira comédia que me fez refletir. Aziz fez um ótimo trabalho ao trazer narrativas e temas raramente abordados em sitcoms, como casamento, filhos, relação com os pais, preconceito, racismo, sexismo, além de outros perrengues e ansiedades dos recém-adultos. Tudo isso de maneira cômica, mas sem deixar o tom de seriedade de lado – daí o humor inteligente.

Dev, o personagem de Aziz, é um americano de descendência indiana tentando ser ator em Nova York enquanto lida com a crise dos 30 anos. Como muitos jovens adultos modernos, Dev chega nessa idade sem ter uma família e com dúvidas quanto à sua profissão.

Já no segundo episódio, intitulado “Pais”, temos a primeira grande reflexão. Dev e Brian (Kelvin Yu), seu amigo de descendência taiwanesa, exploram a desconexão entre suas vidas relativamente confortáveis com a dura realidade de onde seus pais vieram. “Pais” destaca o abismo que muitas vezes existe entre os imigrantes e as crianças que nascem em um novo país diferente da origem de seus progenitores. É uma história bastante comum para filhos de imigrantes, mas você não precisa necessariamente ser um para ter empatia. Os jovens brasileiros, por exemplo, tem uma vida muito mais confortável do que a que seus pais tiveram. E me incluo nisso. É doloroso e chocante ver nosso reflexo nessa narrativa.

A trilha sonora é parte fundamental para o desenvolvimento das histórias, como o próprio Aziz afirmou em entrevista para a Pitchfork. Nomes de peso da cena alternativa como Lou Reed, Johnny Cash, Depeche Mode, The Cure, Serge Gainsbourg e outros não tão conhecidos como Mac DeMarco, Aphex Twin e Spandau Ballet dão um toque cult nos episódios. O próprio nome da série foi retirado da música homônima do duo Beach House.

“Master of None” dialoga com o presente. Nos sentimos numa conversa entre amigos. É o nosso mundo. Diferente de outras produções, marcas reais são citadas sem apelo publicitário. Programas de TV da década de 1990, redes sociais, marcas de refrigerante, bandas e até outras séries estão presentes nos diálogos.

Aziz criou de forma sutil um espaço para a imaginação e a possibilidade. E esse é o papel do entretenimento – e do humor inteligente –, nos inspirar e nos lembrar que não estamos sozinhos. Não importa o tema que os personagens estão enfrentando, eles nos incutem sentimentos de empatia e nos levam à autoreflexão. O resultado é uma mostra incrivelmente doce e esperançosa sobre como é ser um jovem adulto nos tempos atuais.

28 anos, catarinense, escritor, empreendedor e freelancer em marketing digital. Eleito pelo LinkedIn como o terceiro brasileiro mais influente da rede em 2016. Escreve também no HuffPost e no Transformação Digital.

  • Esse post me lembrou uma outra serie que vi esses dias no Netflix e que, diferente dessa, apesar de não ser uma comedia, também nos faz refletir sobre nosso presente e atitudes: Black Mirror. Sao apenas 5 episódios, mas tem bastante para nos fazer refletir.

    Essa ja esta na lista, anotada, e vou assistir com certeza.

    • Obrigado pela participação e pela dica, Anderson. Não conhecia Black Mirror, coloquei na minha lista. 🙂

  • Vou ver, vou ver.

  • ótimo post!