07 de julho de 1994. Enquanto o Brasil vencia os Estados Unidos na Copa do Mundo com um gol de Bebeto – aquele do famoso beijo em Romário – a Frente Patriótica de Ruanda (FPR), apoiada pelo exército de Uganda, colocava um fim no genocídio que massacrou cerca de 800 mil pessoas em 100 dias.

Ontem (29/12/2015), um dos envolvidos na carnificina foi sentenciado à prisão perpétua na Alemanha. Onesphore Rwabukombe foi considerado culpado de participar de um massacre contra membros da etnia tutsi numa igreja em Kiziguo, onde era prefeito. As informações são do Deutsche Welle.

Apesar dos milhares de artigos dedicados ao genocídio de Ruanda, no entanto, não uma boa resposta para a pergunta mais básica: por quê? Eu também não a tenho. Mas aqui vai um breve um resumo num esquema de perguntas e respostas. Jogo rápido.

O que foi o Genocídio de Ruanda?

Em 06 de abril de 1994 os hutus começaram o massacre contra os tutsis. A comunidade internacional ficou de braços cruzados enquanto dezenas de milhares de vidas eram ceifadas. Isso pode ser visto no filme “Hotel Ruanda“. Com duração de 100 dias, o genocídio ruandês matou cerca de 800 mil tutsis e simpatizantes.

Quem são os hutus e os tutsis?

Hutus e tutsis são dois povos que compartilham um passado comum. Quando Ruanda foi colonizada, as pessoas que viviam ali criavam gado. Os que possuíam o maior número de gado foram chamados de “Tutsi” e o “resto” foi chamado de “Hutu”. Neste momento, uma pessoa poderia facilmente mudar sua “categoria” através do casamento ou da aquisição de gado. Os alemães foram os primeiros a colonizar Ruanda em 1894. Depois vieram os belgas. Os colonizadores olharam para o povo ruandês e observaram que os tutsis tinham características mais europeias, como a pele mais clara. Assim, eles colocaram tutsis em funções de responsabilidade. Logo, a diferença se tornou racial.

A cor da pele faz diferença?

Quando os alemães perderam suas colônias após a Primeira Guerra Mundial, a Bélgica assumiu o controle de Ruanda. Em 1933, os belgas solidificaram as categorias de tutsis e hutus, determinando que cada pessoa teria um cartão de identificação com sua definição étnica: Tutsi, Hutu ou Twa este último um grupo muito pequeno de caçadores que também vivem em Ruanda.

Embora os tutsis fossem apenas cerca de 10% da população de Ruanda e os hutus quase 90%, os belgas deram aos tutsis todas as posições de liderança. Isto perturbou os hutus. Quando Ruanda lutou pela independência da Bélgica, os belgas trocaram o status dos dois grupos. Diante de uma revolução instigada pelos hutus, os belgas lhe concederam o comando do novo governo. Isto perturbou os tutsis. A animosidade entre os dois grupos continuou durante décadas.

O evento que provocou o genocídio

Às 20h30 do dia 06 de abril de 1994, o presidente de Ruanda, Juvenal Habyarimana, estava retornando de uma cimeira na Tanzânia quando um míssil atingiu o avião em que estava. Todos a bordo morreram no acidente.

Desde 1973, o presidente Habyarimana, um hutu, tinha executado um regime totalitário em Ruanda, que tinha excluído a participação dos tutsis. Isso mudou em 03 de agosto de 1993, quando Habyarimana assinou os Acordos de Arusha, que enfraqueceram os hutus autorizando os tutsis a participarem do governo. Isto chateou os extremistas hutus.

Embora nunca tenha sido determinado quem foi realmente responsável pelo assassinato, extremistas hutus lucraram com a morte de Habyarimana. 24 horas após o acidente, eles assumiram o governo e culparam os tutsis pelo assassinato. Isto começou a matança.

100 dias de carnificina

Os assassinatos começaram na capital de Ruanda, Kigali. A Interahamwe, uma organização da juventude anti-tutsi estabelecida por extremistas hutus, bloqueou as estradas. Eles checaram cartões de identificação e começaram a matar os tutsis utilizando facões ou machetes.

Em 07 de abril, extremistas hutus começaram a purgar o governo de seus adversários políticos, o que significou que tanto tutsis quanto hutus moderados foram mortos. Isto incluiu o primeiro ministro. Quando dez soldados belgas da Organização das Nações Unidas (ONU) tentaram o proteger, eles também acabaram mortos. Isso fez com que a Bélgica começasse a retirar suas tropas de Ruanda.

A violência se espalhou pelo país. O governo tinha os nomes e endereços de quase todos os tutsis que viviam em Ruanda (lembre-se, cada ruandês tinha um cartão de identidade lhe marcando como Tutsi, Hutu ou Twa). Os assassinos poderiam ir de porta em porta para matar os tutsis.

Homens, mulheres e crianças foram mortos. Muitos eram frequentemente torturados antes de serem assassinados. Também durante a violência, milhares de mulheres tutsi foram estupradas. Algumas foram estupradas e depois mortas, outras foram mantidas como escravas sexuais durante semanas. 

O mundo cruzou os braços e apenas assistiu

Após a Segunda Guerra Mundial e o Holocausto, a ONU adotou uma resolução em 9 de Dezembro de 1948 estabelecendo que “As Partes Contratantes confirmam que o genocídio, quer cometido em tempo de paz ou em tempo de guerra, é um crime sob a lei internacional que se comprometem a prevenir e a punir“. Claramente, os massacres em Ruanda constituem genocídio. Então, por que o mundo não interveio para parar com isso?

Tem havido uma série de pesquisas sobre esta pergunta exata. Algumas pessoas disseram que como hutus moderados foram mortos nos estágios iniciais, alguns países acreditavam que o conflito seria “apenas” uma guerra civil, ao invés de um genocídio. Outra pesquisa mostrou que as potências mundiais perceberam que era um genocídio, mas que eles não queriam pagar os suprimentos e o pessoal necessários para detê-lo.

Outros, mais tóxicos em suas colocações, dizem quem os Estados Unidos não tinham interesse algum em explorar o país, como faz no Oriente Médio… Vai saber.

O fim do genocídio

O genocídio em Ruanda só termina quando a FPR, um grupo militar formado por tutsis que tinham sido exilados nos anos anteriores, toma conta do país.  A ação teve apoio do governo de Uganda.

A FPR foi capaz de entrar Ruanda e, lentamente, tomar o país. Em meados de julho de 1994, quando tinha total controle do país, o genocídio finalmente foi interrompido.

Quer saber mais?

Se você quiser se aprofundar no assunto e entender como Ruanda está hoje, mais de 20 anos após o genocídio, indico esta matéria especial da revista da ONG internacional World Vision (em inglês).

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28 anos, catarinense, escritor, empreendedor e freelancer em marketing digital. Eleito pelo LinkedIn como o terceiro brasileiro mais influente da rede em 2016. Escreve também no HuffPost e no Transformação Digital.