Para chegar à praia de Rockaway Beach, localizada no Queens – e imortalizada na música de mesmo nome dos Ramones –, você deve pegar a linha A em direção à Far Rockaway. Desça na Broad Channel e troque para a linha S. São quatro opções de descida: Beach 90st, 98st, 105st ou 116st. É como se o metrô entrasse num portal e lhe levasse para um lugar sereno em meio ao caos de Nova York. E é lá que o canadense Mac DeMarco (25) se esconde quando não está vagabundeando pelo Brooklyn ou em alguma turnê ao redor do mundo – ele se apresenta no Brasil no final deste mês.

“Another One”, seu mini-LP lançado em agosto, passou batido pela grande mídia – assim como seus trabalhos anteriores, diga-se de passagem. Mac é o grande nome do underground atual, queridinho dos blogs cults e de revistas especializadas, o herói bobão do indie rock. Gravado de forma caseira em seu apartamento na Bayfield Ave, em Arverne – ele nos convida para um xícara de café ao dizer seu endereço no final de “House by the Water”, última canção do disco –, seu mais novo registro tem um toque reflexivo e a serenidade que o músico encontrou em Rockaway Beach.

Diferente das divertidas e, muitas vezes, nonsenses canções dos primeiros álbuns, “Another One” parece ter sido concebido para um churrasco no final do dia, quando o sol se põe e a cerveja naturalmente começa a desaparecer. Coincidência ou não, pouco antes de seu lançamento, Mac divulgou nove músicas instrumentais no SoundCloud autodenominadas de “trilha sonora para o churrasco”, sob a alcunha de “Some Other Ones”. Ele, inclusive, distribuiu cachorros-quentes para a vizinhança como forma de divulgar este material.

Mac DeMarco por Chris Buck
Mac DeMarco por Chris Buck (www.chrisbuck.com).

O fato é que, por trás do maluco bobão que faz vídeos bizarros em VHS e enfia baquetas na bunda em suas apresentações, existe um compositor extraordinariamente sensível. “Still Together”, do álbum “2”, já havia nos dado uma palhinha deste outro lado de Mac. “Another One” o explicitou.

O solo em “The Way You Love Her” parece ter sido escrito com a estrutura das músicas de Robbie Robertson em mente. Poucas músicas soam tão convidativas como quando Mac canta em “No Other Heart”: “Come on and give this lover boy a try/ I’ll put the sparkle right back in your eyes/What could you lose?“.

A progressão de acordes em “Without Me” – possivelmente sua canção mais bonita em toda carreira – é sustentada por uma nuvem de sintetizadores, criando um sentimento apaixonado em que ele canta sobre a aceitação de uma mulher que é melhor sem ele. “Just To Put Me Down” tem o refrão que leva o título da canção cantado tão lentamente e, repetido tantas e tantas vezes por Mac, com sua guitarra explodindo em repiques de expressão, que temos uma sensação lisérgica. A música que leva o título do álbum é um giro introspectivo, em que seu intérprete se mostra profundamente angustiado sobre a incerteza de seu relacionamento, enquanto se pergunta se há um “outro” batendo na porta de sua amada.

Se você gosta do universo único de Mac DeMarco, gostará de “Another One”. Seus riffs característicos estão lá, bem como seu humor escrachado, mesmo nas canções mais lentas. É como se ele estivesse num estado meditativo, relaxado por técnicas budistas ou por algum alucinógeno usado em Rockaway Beach.

Se você estiver por Nova York e quiser tomar um café com Mac, o endereço é este: 6802 Bayfield Ave, Arverne, New York.

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[Atualização: 04/11/2015 – 18h]

Foram divulgadas novas datas e locais da turnê de Mac no Brasil. Veja aqui.

28 anos, catarinense, escritor, empreendedor e freelancer em marketing digital. Eleito pelo LinkedIn como o terceiro brasileiro mais influente da rede em 2016. Escreve também no HuffPost e no Transformação Digital.