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Há três anos eu me demitia para tentar viver da escrita. Se você me perguntar o que faço hoje te direi que sou escritor, mas o que menos fiz em 2019, o ano em que mais ganhei dinheiro na vida, foi escrever.

Gravei e lancei cursos online por conta própria, produzi conteúdos em diferentes mídias para diferentes marcas, mas a maior parte do tempo passei respondendo e-mails, participando de videochamadas –– que muitas vezes não deram em nada –– e lidando com as burocracias de ter um CNPJ.

Escrever? Apenas o necessário para fazer toda essa máquina girar.

Às vezes me pego pensando que a vida seria mais simples se eu fosse tipo o personagem de Adam Driver no filme Paterson.

Acordar todos os dias sabendo o que esperar. Encher uma garrafa térmica com café, preparar minha marmita e dirigir um ônibus em alguma cidade do interior. No final do expediente sentar em algum lugar confortável e escrever poesia –– sem a pretensão de ganhar dinheiro com isso.

Foto: Adam Driver em 'Paterson', por Mary Cybulsky.
Foto: Adam Driver em ‘Paterson’, por Mary Cybulsky.

Esqueça aquela famosa frase atribuída a Confúcio

Você certamente já ouviu ou leu a frase “escolha um trabalho que você ame e não terás que trabalhar um único dia em sua vida“. Talvez isso fizesse sentido há décadas ou centenas de anos atrás. Hoje não mais. E é aí que a tal busca por um propósito pode nos frustrar.

Trabalho é trabalho. Hoje sou muito mais feliz e realizado do que nos meus tempos de CLT, tenho sorte de fazer o que gosto e ser pago por isso, mas temos que parar de nos apegar em frases de efeito que romantizam o trabalho.

Nos tempos em que estava totalmente frustrado com os rumos da minha carreira e buscando um propósito, algo maior, sonhava com o dia em que poderia viver da escrita. Hoje, após ter conquistado meu objetivo, me pergunto: é só isso?

Porque, no final das contas, trabalho é trabalho.

É maravilhoso termos reconhecimento em nossas áreas, ganharmos dinheiro fazendo o que gostamos, mas lá na frente, quando estivermos velhinhos, lembraremos com carinho do tempo que passamos com a nossa família, dos encontros com os amigos, das viagens, dos momentos em que, de fato, vivemos –– da forma mais literal possível da palavra.

“Porque, no final, você não vai se lembrar do tempo que passou trabalhando no escritório ou aparando a grama. Escale aquela maldita montanha”. Trecho de “Os Vagabundos Iluminados”, livro de Jack Kerouac.

Mesmo aqueles que amam ou dizem amar seus trabalhos estão esperando o final de semana assim como você que está frustrado no trampo.

Existe coisa melhor do que ficar de bobeira e passar um tempo de qualidade com quem você ama? Não se esqueça que as melhores coisas do mundo são gratuitas e estão fora do escritório: abraços, sorrisos, beijos e até a natureza.

Não ter um propósito não é o fim do mundo. Continue em movimento

Você não precisa ter um propósito de vida ou algo do tipo, mas a vida é certamente mais divertida e interessante quando você está em movimento.

Continue andando, continue explorando, continue aprendendo, continue lendo, continue viajando, continue tirando fotos, continue escrevendo, continue pensando.

Continue em movimento.

Olhando pra trás, vejo que eu deveria ter aproveitado melhor a jornada quando era CLT. Saboreado as pequenas vitórias, curtido o momento. Muito da minha frustração da época vem dessa busca por um propósito.

Isso não significa que não exista algo maior

Do mesmo jeito que tem muita gente frustrada com a sua carreira porque não encontra um propósito no seu trabalho, tem uma galera feliz da vida que diz ter encontrado o seu. E que bom! Fico feliz por essas pessoas.

O problema está no discurso apelativo de autoajuda que diz que basta você seguir suas paixões ou ir atrás dos seus sonhos. Não, não basta.

Quem fala isso não leva em conta que cada um tem uma realidade e que tem muita gente por aí que simplesmente não sabe o que quer da vida –– independente da idade.

Eu me encontrei antes dos 30, mas sei que uma galera, infelizmente, vai chegar aos 80 sem ter encontrado algo que goste. É por isso que falo pra você aproveitar a jornada, estar em movimento e se preocupar menos em encontrar um propósito.

Talvez sua frustração venha dessa busca por algo que você nem sabe o que é. E enquanto você fica nessa, reclamando de Deus e do mundo, a vida segue passando lá fora. Já parou pra pensar nisso?

Um escritor que vive pelo mundo e conta histórias. Autor do livro "Nômade Digital".