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O aviso em inglês na porta do quarto do hotel era um indicativo de que Chiang Mai, a segunda maior cidade da Tailândia, ia muito além de elefantes, templos budistas e nômades digitais.

“Proibido trazer prostitutas para o quarto”.

A diferença de 10 horas no fuso-horário nos dava a sensação de vivermos no futuro. Enquanto nossos clientes brasileiros assistiam algo na Netflix ou dormiam, minha esposa e eu utilizamos nossa manhã para fazermos nossos trabalhos. Isso nos dava liberdade para curtirmos a cidade no restante do dia.

O café da manhã do hotel era reforçado. Frutas, pães e diferentes tipos de sucos. Quando a fome bateu novamente, lá pelas 14h, comprei suprimentos na 7-Eleven que ficava há uma quadra dali. De volta ao quarto, fitei novamente aquele aviso.

“Proibido trazer prostitutas para o quarto”.

Com nossas demandas entregues, chega a hora de explorar Chiang Mai. Atravessamos a Iron Bridge e fizemos alguns programas de turistas. Visitamos templos budistas, fomos numa famosa feirinha e andamos sem rumo.

O final da tarde se aproximava. Sentamos num restaurante qualquer e pedimos pad thai. Na mesa ao lado havia um senhor solitário que por instantes achei se tratar de Stan Lee, aquele dos quadrinhos. Óculos estilo aviador, cabelo branco milimetricamente penteado para trás, bigodinho safado, terno azul-marinho, camisa branca com três botões abertos, segurando um cigarro numa mão e um copo de aperol spritz na outra. Confesso que fiquei com inveja daquele senhor que, provavelmente, estava passando um calor dos infernos, mas tinha estilo. Eu, maloqueiro, vestia uma camiseta cinza da NASA marcada pelo meu suor, bermuda de banho comprada numa loja de departamento, tênis surrado da Vans, cabelo amarrado por causa do calor, cerveja quente numa das mãos e iPhone de duas gerações anteriores na outra.

Na rua, turistas americanos com suas camisas florais desfilavam rumo à Loi Kroh Road, nossa próxima parada. A recepcionista do hotel havia nos falado que essa rua é famosa por seus barzinhos.

A noite chega e o número de turistas americanos com suas camisas florais aumenta. Grupos de cinco ou seis caras, geralmente de meia-idade pra cima. Acho aquela movimentação estranha, mas seguimos guiados pelos painéis de neon que surgem no horizonte como potes de ouro no final do arco-íris.

Liverpool e Tottenham jogarão naquela noite pelo campeonato inglês e tudo que procuramos é um bar com uma TV ligada no canal de esportes. Os tailandeses são malucos pelo futebol da terra da Rainha. Ao espiar o interior de um bar qualquer, vejo o senhor que parece o Stan Lee. Ele está sentado num sofá vermelho na companhia de duas tailandesas bastante maquiadas e com roupas curtas e apertadas. Forço meu pescoço para frente e consigo ver alguns grupos de turistas americanos com suas camisas florais também acompanhados por tailandesas bastante maquiadas e com roupas curtas e apertadas.

A fachada do prédio diz que o bar, na verdade, se trata de um karaokê. Porém, não há palco, tampouco microfones. Algo está errado naquela cena. Olho em volta e percebo que em todos os bares da rua, que na verdade são karaokês, tailandesas bastante maquiadas e com roupas curtas e apertadas recepcionam os turistas americanos com suas camisas florais. Oferecem drinks, se insinuam e os chamam para dentro. Os painéis de neon em Chaing Mai escondem algo.

Deixamos a Loi Kroh Road à bordo de um songthaew, uma camionete vermelha adaptada que transporta os turistas estilo boias-frias. O motorista nos leva para o centro da cidade onde bares realmente são bares. Nos acomodamos próximos à TV. Os times já estão em campo e há alguns ingleses torcedores do Tottenham no recinto. Eles estão acompanhados por tailandesas bastante maquiadas e com roupas curtas e apertadas.

De volta ao hotel, levemente embriagado e com turistas americanos com camisas florais e tailandesas bastante maquiadas e com roupas curtas e apertadas invadindo meus pensamentos, pego uma Singha no frigobar e digito “chiang mai sex tourism” no Google.

Dou um longo gole na cerveja enquanto a página carrega. As respostas do mecanismo de busca pipocam na tela do celular e agora o aviso em inglês na porta do quarto do hotel faz sentido. Os painéis de neon em Chiang Mai realmente escondem algo.

Publicado originalmente no Medium.

Nômade digital que escreve, empreende e ensina. Eleito pelo LinkedIn como o terceiro brasileiro mais influente da rede em 2016. Cofundador do be freela. Você também pode ler meus conteúdos no HuffPost, no Transformação Digital, Comunidade Rock Content e no Medium.