No início de 2017 eu e a Laís largamos nossos empregos para nos dedicarmos ao que amamos: eu escrevo; ela fotografa — e também escreve.

Uma outra paixão nossa é viajar. Sempre tivemos o sonho de viajar o mundo enquanto trabalhamos.

Hoje, como profissionais autônomos ~os famigerados freelancers~ que conseguem entregar suas demandas de forma remota, finalmente temos liberdade geográfica para desempenharmos nossas atividades em qualquer lugar do globo — seja aqui em Tubarão; em Urubici, como na foto que ilustra o post; ou num bangalô em Chiang Mai, na Tailândia, como faremos em novembro deste ano.

Chamam isso de nomadismo digital. Uma espécie de home office 2.0; onde você deixa sua “home” pra trás e a transforma no mundo.

Após muito planejamento e pequenos testes pelo Brasil, este mês partiremos para o nomadismo em escala global. Até o final do ano passaremos por México, Coreia do Sul, Tailândia e Argentina. Trabalharemos de forma remota nesses lugares e contaremos a experiência num portal que estamos criando sobre o tema. Também escreverei a respeito no LinkedIn, no HuffPost e no Transformação Digital.

Há algumas semanas questionei os leitores em meu perfil no LinkedIn a respeito das suas principais dúvidas sobre nomadismo digital. Percebi que a publicação gerou uma grande curiosidade e resolvi, então, reunir as perguntas mais frequentes neste texto.

Percebi, também, um certo romantismo com essa ideia de viajar o mundo enquanto se trabalha. Porém, como em tudo na vida, a teoria é muito mais simples do que a prática. Você verá que trabalhar remotamente exige muito mais responsabilidade. Aliás, nada vem fácil. Graças ao nosso trabalho duro que conseguimos ter essa flexibilidade.

Dito isso, vamos lá.

Nomadismo digital é pra você?

Antes de entrar nas perguntas mais frequentes, reflita sobre isso.

Muita gente sonha viajar o mundo e fazer o seu trabalho remotamente. Mas, na prática, isso não funciona pra todo mundo. A grande verdade é que, apesar de parecer um modelo de trabalho perfeito, o nomadismo digital não é só alegrias. Nem todo mundo consegue lidar com os contras — embora os prós, na minha opinião, compensem demais.

Um nômade digital precisa ser extremamente organizado, afinal, toda a responsabilidade pela entrega das demandas é sua. Você também terá que lidar, muitas vezes, com a solidão. Tem dias que você trabalhará durante 6 horas, em outros durante 14.

E a família, como fica? Se você tem filhos, talvez não seja uma boa ser um nômade. Como fica a educação dos pequenos? Embora existam nômades que viajam com seus filhos, esse é o tipo de coisa que você terá que colocar na balança.

Vale a pena? Pra gente, vale muito. E pra você?

Por onde começar?

Essa é, talvez, a pergunta mais frequente — e também a mais óbvia.

Quando falamos em nomadismo digital temos que ter em mente que cada caso é um caso. O que serve pra mim e pra Laís, talvez não sirva pra você. Não adianta tentar seguir os nossos exemplos ou os de outras pessoas de forma literal, já que cada um tem suas experiências, seu modo de ver o mundo e, principalmente, suas escolhas.

Eu dividiria esse começo em 3 fases:

Decisão, planejamento e prática.

1 – Decisão

Nós decidimos que queríamos esse estilo de vida há 2 anos. Esse é o primeiro passo. E por decisão, não falo de sonhar com isso: é bater o pé!

A partir do momento que você decide que é isso que quer para sua vida, seu foco deve estar voltado para esse objetivo. Pesquise muito sobre sua área e pense em como você pode desempenhar seu trabalho de forma remota. Pense em maneiras que você pode ganhar dinheiro fazendo o que faz — ou algo derivado do que faz — sem precisar estar presente no escritório.

No meu caso, que trabalho com marketing de conteúdo, é bem simples: ganho a vida escrevendo textos, então posso fazer isso de qualquer do mundo. Não há a necessidade de ficar trancado num cubículo por 8 horas a fio.

Essa é a hora de você utilizar aquele clichê e pensar fora da caixa. Enxergue além do óbvio. Será o tipo de resposta que você não encontrará perguntando pro Matheus, pra Laís ou pra outro nômade. Nós demoramos cerca de 2 anos para encontrarmos essas respostas — mas encontramos.

2 – Planejamento

Se você já encontrou as tais respostas, agora é hora de juntar todas essas referências e criar seu próprio caminho.

Como você vai ganhar dinheiro? Como vai conseguir clientes? Quanto precisa pra se manter no país desejado pelo tempo desejado? Que ferramentas você precisa pra realizar o seu trabalho?

É hora de responder novas perguntas.

Também sempre nos perguntam pelo dinheiro. E essa é uma parte fundamental no planejamento. Bom, durante 1 ano guardamos grana pra eventuais emergências. Isso é básico. Não acredite nesse negócio de “largar tudo e colocar a mochila nas costas“. Isso só funciona se você é rico ou filho de pais ricos que te sustentam. Do contrário, você precisa ser responsável e se planejar. E bem.

O nomadismo digital é, além de tudo, uma questão de escolhas.

Somos um casal sem filhos e que tem um estilo de vida que beira o minimalismo; somos bastante desapegados aos bens materiais. Então, sempre conseguimos economizar e temos poucos custos. E, falando especificamente de grana, como mencionei, é uma questão de escolhas. Na viagem do México, por exemplo, escolhemos entre comprar um sofá ou as passagens (saiu R$ 600 cada já com taxas e saindo aqui de Floripa). Já o custo de vida, nem preciso falar que viver aqui no Brasil é muito mais caro do que na maioria dos países, né?

O ponto aqui não é o “como ganhamos dinheiro“, mas sim o “com o quê não gastamos dinheiro“.

Por exemplo: um nômade digital não precisa de carro. Alguns que conheço nem casa tem. Como disse: escolhas.

Nossas economias são um fundo pra emergências e, de certa forma, pra pagar hospedagens e passagens (que podem ser feitas em 10x e só compramos na promoção como contei aqui). O ideal é que você calcule quanto precisa de dinheiro para se manter por 1 ano. A partir daí o negócio é cortar custos desnecessários e economizar.

3 – Prática

Com o planejamento pronto, chega a hora de tirar tudo isso do papel. Faz 9 meses que eu e a Laís deixamos nossos empregos. Nosso fundo emergencial ainda não precisou ser usado — apenas o “fundo de viagem”, onde guardamos uma quantia para passagens, hospedagens e outros gastos do tipo.

Apenas com a prática você vai entender se isso é algo viável ou é melhor voltar para o escritório. Não apenas a parte das viagens, mas também dos serviços que você prestará. Os meus, por exemplo, mudaram nesses 9 meses. Algumas coisas percebi que não estavam funcionando, enquanto outras eu deveria dedicar mais tempo.

Sobre as viagens, comece localmente. Antes de irmos pro exterior, eu e a Laís fizemos algumas pequenas viagens aqui mesmo em Santa Catarina. Fizemos isso para validar esse modelo de nomadismo, ou seja, para entender se realmente funcionaria pra gente. Funcionou.

Que tipo de trabalho eu posso fazer?

Sei lá! Aí é com você!

Brincadeira!

Mas, basicamente, eu diria que qualquer atividade que você possa desempenhar de forma remota. Algo que você não precise estar fisicamente no escritório e que possa entregar. A maioria dos nômades que conheço trabalham com marketing, design (nas suas mais variadas formas) e programação. Mas isso não quer dizer que você não possa ser um.

O negócio, na minha opinião, não é esperar um trabalho; é criar um! Crie um produto ou serviço e faça que as pessoas o queiram. Veremos como conseguir os clientes no próximo item!

Como conseguir clientes sendo um nômade digital?

Tenha em mente que nomadismo digital não é um trabalho; é uma condição um estilo de vida e de trabalho. O que quero dizer com isso é: hoje já trabalhamos de forma remota, ou seja, não precisamos da presença física num escritório para desempenharmos nossas atividades. O que muda com o nomadismo é que faremos nosso trabalho em outro lugar; mas as atividades seguem as mesmas.

Digo isso porque já estamos saindo daqui com clientes, não estamos indo pra esses lugares buscar por novos. Quem procura pelos nossos serviços (e os meus você pode ver aqui) não procura por um nômade em si, já que, como falei, essa é uma condição. Hoje é muito mais barato pra uma empresa contratar um freelancer pra fazer determinado serviço do que ter mais um funcionário. E isso acaba se tornando uma vantagem competitiva pra gente.

Quanto a prospecção, eu utilizo uma estratégia de marketing pessoal e de conteúdo, tendo como principal ferramenta o LinkedIn. Basicamente, crio conteúdos que sejam úteis para as pessoas dentro das áreas que domino. Isso gera curiosidade sobre o meu trabalho, o que, consequentemente, faz com que os “curiosos” pensem em mim quando precisam de determinado serviço. No meu curso online de “Marketing Pessoal e Produção de Conteúdo no LinkedIn”, ensino todas as estratégias que utilizo para ser visto e fechar negócios na maior rede profissional do mundo.

Como ter disciplina?

Nem todo mundo consegue trabalhar em casa. Ou num coworking. Ou num café.

O primeiro mês de trabalho remoto, pelo menos pra mim, foi bem tenso nesse sentido! Mas, depois que criei uma rotina e vi o que faço como trabalho, virou um hábito. Nas pequenas viagens que fizemos por Santa Caatarina, após já termos essa experiência trabalhando em casa, levamos nossas rotinas na mochila. Basicamente, acordamos bem cedo, fazemos todo o trabalho  e adiantamos o possível , para conseguirmos aproveitar as cidades por onde passamos.

Então, a dica é: tenha uma rotina. A minha melhorou muito depois que li “O Poder do Hábito“.

E a internet?

Quando reservamos os quartos, via Booking ou Airbnb, o principal item que olhamos nas resenhas é o sinal de internet. Na Ásia isso não é problema, Coreia do Sul e Tailândia estão no grupo das melhores conexões do mundo, mas no México e na Argentina essa foi uma grande preocupação; pesquisamos por lugares onde outros nômades tivessem resenhado positivamente. (Mas é o tipo de coisa que só teremos certeza quando chegarmos lá…)

E a parte fiscal?

Se você trabalha por conta própria, o ideal é se tornar pessoa jurídica. Não sou contador e o ideal é que você procure um, mas, basicamente, os nômades que conversei se enquadram nas categorias MEI ou microempresa.

Para trabalhar como freelancer, você não precisa, necessariamente, ter um CNPJ. Você pode emitir notas fiscais como pessoa física e tudo mais. Porém, recomendo que você profissionalize o seu negócio. Acredite: você pagará menos impostos — principalmente se tiver recebimentos do exterior e tiver que emitir o tal do “carnê-leão“.

Em todo caso, procure um contador.

E essas ferramentas pra arranjar freelas?

Olha, confesso que nunca utilizei essas ferramentas. Porém, a Laís utiliza uma, a Appen, e sempre tem trabalho por lá.

No meu caso, foquei em criar minha própria audiência e a partir daí oferecer meus serviços o tal do marketing de conteúdo.

Minha principal ferramenta de trabalho, como mencionei, é o próprio LinkedIn entrego conteúdo de valor e as empresas chegam até mim; não o contrário. Além disso, também tenho meu próprio site e uma newsletter.

E os vistos?

Isso entra naquela parte de planejamento.

Cara, se você escolheu essa vida, vai ter que aprender a se virar. E isso significa pesquisar muito! Cada país tem suas peculiaridades. A Tailândia, por exemplo, oferece um visto de entrada longo, então você pode passar um período maior de tempo por lá.

A questão dos vistos é que, como você não está indo para esses países para trabalhar numa empresa local, ou seja, você não está tirando o trabalho de um nativo, não há necessidade de visto de residência ou mesmo de trabalho. Porém, por uma questão lingüística e, mesmo cultural, tome cuidado na hora de explicar para os agentes locais o que você irá fazer naquele país. Se você responder que está indo trabalhar, poderá ser interpretado de forma errada — veja bem, não estou dizendo para você burlar a lei ou então entrar de forma ilegal em algum país. Meu ponto é que problemas na comunicação podem barrar sua entrada. Mostre suas reservas, sua passagem de volta, seu visto (se for o caso) e tudo ficará bem.

Tem mais alguma dúvida?

Fala aí nos comentários.

Ah, e me acompanhe no Instagram! Durante as viagens publicarei diariamente Stories e fotos com os bastidores dessa vida nômade!

28 anos, catarinense, escritor, empreendedor e freelancer em marketing digital. Eleito pelo LinkedIn como o terceiro brasileiro mais influente da rede em 2016. Escreve também no HuffPost e no Transformação Digital.

  • Luan Gonçalves

    Muito bom seus posts, Matheus! Parabéns! Ei, você falou em tubarão, vc morava nessa cidade de sc?
    Abraço!

    • Valeu, @luanidalino:disqus!

      Cara, na real, Tubarão é minha “base”, meu CEP. É lá que está o meu apartamento. É pra lá que eu volto depois de cada viagem! Hehe! Apesar de hoje me considerar um cidadão do mundo, Tubarão é minha casa (mas minha cidade natal é Imbituba, também em Santa Catarina).

      Abraço!

      • Luan Gonçalves

        Bacana cara!
        Ta representado bonito a sua “base” em! Massa!!Sucesso man!

  • Pingback: Precisamos conversar sobre esse negócio de "largar tudo e viajar o mundo" | Matheus de Souza()