Imagino que hoje você acordou e ficou um tempo na cama checando suas redes sociais. Mesmo sem ter notificações. Aquela conferida nos Stories do Instagram. Um clique no WhatsApp para ter a certeza que ninguém te chamou (vai que a conexão está ruim e o aplicativo não atualizou). Uma rolada com o dedo pelo buraco negro do Facebook. Uma espiada no LinkedIn com a desculpa de que essa é uma rede profissional.

E lá se vão trinta minutos.

Você talvez ainda tenha que tomar banho e se preparar para o trabalho. Preparar o café da manhã. Levar as crianças na escola.

No momento em que decide se levantar, uma nova notificação no WhatsApp. Um vídeo sem muita graça, mas que gera alguns emojis e comentários no grupo da família.

E lá se vão trinta minutos.

Precisamos conversar sobre o vício em celular

Eu estava com esse texto na cabeça faz um tempo. Para ser sincero, a ideia estava salva no aplicativo de notas do meu celular – o que, de certa forma, soa irônico.

Essa semana li três ótimos textos que, embora tenham abordagens diferentes, mostram como estamos cada vez mais viciados em nossos celulares.

Mathias Luz falou sobre suas tentativas de superar esse vício. Seu artigo, em forma de experimento, tem ótimas dicas para quem pretende reduzir o número de horas que passa interagindo com uma tela luminosa.

Eberson Terra esteve num festival de música na Alemanha e travou uma batalha contra a vontade quase que incontrolável de tirar o celular do bolso a cada música para fazer filmagens de 15s que serão esquecidas em 24h.

Marco Gomes explicou como desenvolvedores de aplicativos utilizam técnicas de psicologia para nos fazer usar o celular de forma mais frequente.

É incrível como em cada um deles eu consigo me enxergar de alguma forma. Se você os ler, certamente terá a mesma reação.

Seja durante o trabalho ou em momentos de lazer, nunca se olhou tanto para baixo. As pessoas parecem ter apenas um interesse: o celular. Estamos vivendo nossas vidas através de telas luminosas e precisamos conversar sobre isso.

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Como eu percebi que estava viciado

Da mesma forma como meu amigo Mathias relata em seu texto já citado por aqui, meu vício era tão forte que eu nem precisava de notificações para retornar aos aplicativos. Eu clicava por clicar.

“Segundo o princípio descrito no livro ‘O Poder do Hábito‘, isso acontece porque os likes, comentários e o simples fato de checar se existe alguma novidade em nossa timeline gera uma recompensa psicológica (tipo biscoitinho de cachorro) que fortalece o caminho neural dessa ação, que se torna um hábito”. (Mathias Luz)

De acordo com a revista Go Outside (nome super apropriado para o que está sendo debatido aqui), se você apresenta qualquer um dos sintomas abaixo regularmente, pode ser que o seu celular esteja ocupando um espaço mental e psicológico nocivo na sua mente.

  • Vibrações-fantasma: Sentir o celular vibrar no bolso quando na verdade isso não está acontecendo.
  • Efeito tetris: Adormecer com imagens de um jogo ou mídia social na cabeça, ao invés de com a mente tranquila.
  • Checadinhas no meio da noite: Levantar para ir ao banheiro às duas da manhã e não resistir à tentação de ver o celular.
  • Ansiedade por quietude: Esperar em uma fila sem olhar para o celular te deixa desconfortável.

É incrível, mas eu sentia tudo isso aí.

O que me fez perceber o vício, porém, foi o desencadeamento de uma série de fatos que me fez superar um bloqueio criativo.

Saí do Brasil no começo de abril. Depois de passar por Nova York, me mudei para Roma no final do mesmo mês. Desde então, não tenho um plano de dados no celular. “Sobrevivo” com o Wi-Fi. A explicação é simples: como viajo com minha esposa, uma medida para economizarmos uma graninha é apenas um dos dois ter um plano de internet aqui no exterior. Como o celular da Laís é mais novo e melhor que o meu, ela foi a escolhida.

Ainda bem.

Já são tantas histórias e experiências acumuladas nestes dois meses que sinto que vivemos, no sentido mais literal possível da palavra, mais do que todos nossos anos de vida acumulados até aqui. E em todos eles eu não estava com a cabeça baixa mergulhado numa tela luminosa.

O resultado?

Minha criatividade voltou. Consigo fazer novas conexões cerebrais e tenho cada vez mais material e ideias para minha produção de conteúdo. Vem até livro por aí…

Como o vício em celular mata a nossa criatividade

Em um dos meus últimos textos falei sobre como os ingleses dos Arctic Monkeys se reinventaram em seu último álbum.

O vocalista e principal compositor do grupo, Alex Turner, contou como ganhar um piano de presente no seu aniversário de 30 anos o ajudou a superar um bloqueio criativo. O que passou batido por muita gente na época dessa entrevista é que este bloqueio estava diretamente ligado ao uso excessivo do celular por parte do artista.

Em um papo com a BBC britânica, Turner comentou que a parte mais difícil durante a composição desse álbum foi ter autocontrole para não checar seu celular a todo momento.

Batphone“, uma das melhores faixas do álbum e que brinca com o modo como estamos vivendo nossas vidas através das telas de celulares, começa com os versos “Eu quero um sinônimo interessante / Para descrever isso / Que você diz que somos todos grandiosos / Eu vou usar um mecanismo de busca“.

Ironicamente, na música, Turner está buscando uma palavra para descrever como a sociedade está presa em telas de celulares. Para encontrar a resposta ele utiliza, claro, o Google.

Outro artista que abordou esse tipo de vício nos últimos meses foi o gaúcho Armandinho. O cantor anunciou que não utilizará mais suas redes sociais e contou, em post no Instagram, como seu celular estava destruindo sua criatividade.

No meu caso, como produtor de conteúdo, também senti muito isso nos últimos meses. E a explicação é simples. Quando se fala em escrever um texto, por exemplo, as pessoas têm em mente a imagem de um sujeito sentado na frente de um computador esperando por um tipo de inspiração divina.

Porém, a criatividade não funciona assim. Ela é fruto de conexões do seu cérebro. O filme que você viu, o livro que você leu ou uma situação que viveu no dia a dia.

Como contei acima, viver novas experiências todos os dias no exterior tem aflorado minha criatividade. E isso só está acontecendo porque na maior parte dos meus dias eu não tenho acesso à internet. Depender apenas do Wi-Fi, que parecia num primeiro momento um problema, se mostrou a solução perfeita para meu bloqueio criativo.

Porque eu ainda não me considero um ex-viciado

Eu segui todos os passos sugeridos em qualquer texto do tipo. Desativei as notificações do celular, apaguei aplicativos de redes sociais (deixei apenas LinkedIn e Instagram porque são peças importantes do meu trabalho) e ativei as funções grey scale durante o dia e night shift durante a noite.

Meu tempo de uso do celular caiu significativamente e, de fato, me sinto mais focado e aberto para o mundo.

Porém, assim como um dependente químico que parou de usar drogas, o vício segue ali adormecido.

No meu caso, bastam alguns cliques para que os biscoitinhos virtuais me suguem de volta para a tela luminosa.

A luta é diária.

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Nômade digital que escreve e empreende. Eleito pelo LinkedIn como o terceiro brasileiro mais influente da rede em 2016. Cofundador do be freela. Você também pode ler meus conteúdos no HuffPost, no Transformação Digital e na Comunidade Rock Content.