Se tem algo que me incomoda é a falta de informação. Em tempos onde grupos de WhatsApp se tornaram os responsáveis pela formação da opinião de boa parte da população, novos preconceitos surgem quase que instantaneamente cada vez que algo se torna muito popular – e a culpa é justamente dela: a falta de informação.

Você provavelmente já deve ter visto alguma discussão do tipo na rede social ao lado:

Desde quando ser blogueira é profissão?

Desde quando ser Instagrammer é profissão?

Desde quando ser YouTuber é profissão?

Meus amigos e amigas, a resposta é simples: desde que as pessoas começaram a ganhar dinheiro com isso.

A profissão, na verdade, se chama produtor(a) de conteúdo. Blogs, YouTube, Instagram e o próprio LinkedIn são plataformas. São os meios onde esses caras espalham seus conteúdos por aí. Na maioria dos casos o dinheiro vem de ações patrocinadas por marcas. O mercado de influenciadores digitais segue bombando e, dependendo do seu segmento, pode ser muito mais fácil alcançar seu público-alvo investindo nesse tipo de marketing do que em mídias tradicionais.

Agora, se seu questionamento é sobre se isso é ou não uma onda passageira, sua pergunta faz mais sentido. Muitos desses produtores e produtoras de conteúdo têm sofrido com mudanças drásticas nos algoritmos das redes sociais. O caso mais emblemático talvez seja o do YouTube. As mudanças na plataforma de vídeos fizeram com que Felipe Neto, um dos primeiros e maiores YouTubers brasileiros, criasse sua própria plataforma. Goste você ou não dos conteúdos do cara, sua iniciativa mostra uma clara visão empreendedora.

Essa visão, aliás, é o que deve manter ou não relevantes esses produtores de conteúdo no longo prazo. Você talvez já tenha ouvido falar na Glossier, marca no segmento de beleza que, recentemente, recebeu um aporte de US$ 52 milhões – e já havia recebido um outro de US$ 34 milhões, totalizando US$ 86 milhões.

Pois bem, a Glossier surgiu a partir de um blog. Em 2010, Emily Weiss fundou o Into The Gloss, blog focado em beleza feminina. Como uma das seções do blog mostra a rotina de beleza das famosas, Emily conseguiu, de forma consciente ou não, dados valiosíssimos: os feedbacks das leitoras sobre os produtos indicados. Eles realmente funcionavam? O que eles tinham de melhor? O que as leitoras mais gostavam neles? E o que poderia ser melhorado?

De posse dessas informações e com um investidor, Emily fundou a Glossier em 2014 e hoje sua marca vale milhões de dólares. Seu blog, mais do que uma profissão, virou um negócio milionário.

No Brasil, também temos “nossa Glossier”, um exemplo parecido de blog que virou negócio. Negócios, aliás. No plural mesmo. Falo do Tudo Orna, blog das irmãs Bárbara, Débora e Júlia Alcântara. As blogueiras curitibanas hoje são responsáveis por uma marca de bolsas e acessórios, uma linha de maquiagem original, um curso online e até uma cafeteria! De novo, tudo começou com um blog. E é essa história que quero contar nesse artigo.

De blogueiras a empreendedoras

O blog Tudo Orna começou em 2010 como 99% dos blogs começam: com alguém contando suas experiências sobre determinado assunto. Neste caso, com as Irmãs Alcântara compartilhando a paixão por moda, fotografia, decoração e beleza.

A pauta principal, que por alguns anos era só sobre moda, se misturou com a vontade das irmãs de criar oportunidades. E é isso que as difere da maioria dos(as) blogueiros(as): visão empreendedora.

Como produtor de conteúdo e blogueiro, recebo de vez em quando perguntas sobre como monetizar um blog. Vejo que as pessoas têm uma visão limitada sobre isso. Ainda se fala muito em coisas como Google AdSense e marketing de afiliados que, embora possam te ajudar com uma renda extra, dificilmente pagarão suas contas todos os meses.

O blogueiro precisa expandir seu universo se quiser viver da produção de conteúdo. Eu escolhi a prestação de serviços e um curso online.

Já as Irmãs Alcântara foram muito além e mergulharam no mundo do empreendedorismo de uma maneira como nunca vi dentro desse meio. Elas criaram uma espécie de “hub” em torno da marca e se tornaram um case de empreendedorismo criativo. Aproveitando a visibilidade e os milhares de seguidores no Instagram e no YouTube, passaram a oferecer soluções autênticas para um público que elas conhecem bem.

Elas não só criam as tendências: elas as vendem. Isso é empreender.

“Muitas vezes, as pessoas não sabem o que querem até você mostrar a elas”. (Steve Jobs)

O branding impecável da ORNA

Produtoras de conteúdo do mais alto calibre, as Irmãs Alcântara conquistaram sua audiência, construíram sua reputação e expandiram seu negócio ao posicionar e fortalecer suas marcas autorais. Tudo planejado, afinal, o bom produtor de conteúdo não escreve por escrever: há uma estratégia por trás. E o branding das irmãs é impecável.

As iniciativas lançadas por elas criam uma conexão direta com quem partilha dos mesmos valores e se identifica com o que as irmãs acreditam. Na ORNA Concept, acessórios que acompanham a vida diária. Na ORNA Makeup, a valorização de todo o tipo de beleza. No ORNA Café, a materialização de todo esse universo através de um espaço que incentiva o empreendedorismo criativo. Até o apartamento de uma delas, o “Apartamento 33′, virou um case de sucesso no Instagram e gerou publicidade espontânea para o blog. Tudo espontaneamente planejado.

A ORNA não tem seguidores: tem fãs

Parte do sucesso da ORNA se deve ao modo como as Irmãs Alcântara se comunicam com seu público – basta ver a quantidade de seguidores nas contas das suas marcas e pesquisar por #orna no Instagram.

Enquanto algumas marcas utilizam hashtags para dar #bomdia, as irmãs usam e abusam do recurso para criar um senso de comunidade e engajar seu público. Foi assim que uma linha de azulejos da Eliane Revestimentos Cerâmicos chamada “metro white” virou sinônimo desse tipo de material por conta de uma hashtag lançada nas publicações do “Apartamento 33” – para você visualizar melhor: é como se as esponjas de aço passassem a ser conhecidas como Bombril por causa de uma hashtag. O sonho de toda marca – menos da Moleskine.

A influência das irmãs nas redes sociais é tanta que o ORNA Café se tornou um sucesso antes mesmo de ser lançado. A conta no Instagram da primeira iniciativa offline delas já tinha 40 mil seguidores antes de sua inauguração – um ano após o anúncio do lançamento.

E aí aqueles caras dos questionamentos do início do texto, aqueles da falta de informação, podem falar: “Ok, mas dá para comprar seguidores!“. Sim. Dá. E você precisa ser muito ingênuo (para não dizer idiota) para pensar que apenas o número de seguidores de um perfil é capaz de sustentar uma marca. Engajamento é o que conta quando falamos em redes sociais. E é por isso que a ORNA não tem seguidores: tem fãs.

Pelo fato de conhecer muito bem o seu público, afinal, elas são o próprio público, as Irmãs Alcântara conseguem envolver sua audiência através de estratégias simples como essa do print acima. Apostando no lifestyle, o post traz uma pergunta simples acompanhado de uma foto delas em Miami: “Se você pudesse escolher um lugar para viajar agora, qual seria?“.

Esse tipo de estratégia, por mais simples que pareça, gera um engajamento incrível nas publicações de qualquer rede social. Viagens são um tema familiar. Todo mundo tem um lugar que sonha conhecer. Ao forçar esse tipo de interação, além de ganharem milhares de curtidas e comentários, as irmãs aumentam sua distribuição e são vistas por mais gente, já que o algoritmo do Instagram entenderá que quem interagiu naquela publicação quer ver mais do mesmo daqui para frente.

Além da parte “algorítmica”, há também uma estratégia de branding por trás. Esse posicionamento acaba criando uma identificação com quem as acompanha, fazendo com que suas iniciativas sejam um sucesso mesmo que seus posts não sejam necessariamente publicitários. Vender sem estar vendendo, mas com um objetivo comercial claro. O tal do marketing de conteúdo, de modo que o público nunca se sinta enganado, mas sim encantado.

A principal lição que você deve aprender para tirar um projeto do papel

Transformar um blog em um negócio de sucesso é para poucos. Mas, não é impossível. O que rola é que muitos desistem logo no começo, já que, como qualquer negócio, o retorno é demorado.

Um exemplo é uma mensagem que recebi dia desses. Uma leitora reclamava comigo que havia escrito vários artigos no LinkedIn, porém, estava desistindo pela falta de engajamento em suas publicações.

Numa simples olhada no seu perfil percebi que os “vários artigos”, na verdade, se tratavam de sete artigos. Contei pra ela que apenas a partir do meu trigésimo artigo comecei a ser lido – e a partir do centésimo que consegui transformar minhas ideias em negócio.

No caso da ORNA, tudo isso que você leu aqui aconteceu porque elas acreditaram no que estavam fazendo e tiveram visão empreendedora para monetizar sua audiência.

Então, a principal lição que você deve aprender para tirar um projeto do papel é não se preocupar se existem outras pessoas bem-sucedidas fazendo o mesmo que você sonha fazer. Pelo contrário, você deve buscar concorrer com quem está no topo. A concorrência lá em cima é menor.

Afinal, a concorrência existirá em qualquer segmento. Do contrário, ninguém abriria mais padarias. Ou um blog de beleza.

Nômade digital que escreve e empreende. Eleito pelo LinkedIn como o terceiro brasileiro mais influente da rede em 2016. Cofundador do be freela. Você também pode ler meus conteúdos no HuffPost, no Transformação Digital e na Comunidade Rock Content.