Anote aí: 2018 no Brasil será o ano em que amizades serão desfeitas e familiares entrarão em pé de guerra nos seus grupos de WhatsApp.

O motivo? Polarização política.

Como chegamos nisso? Você verá ao longo do artigo.

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Barack Obama, o 44º presidente da história dos Estados Unidos, foi o primeiro convidado de “My Next Guest Needs No Introduction“, nova atração da Netflix que retirou o apresentador David Letterman de sua aposentadoria.

Entre outros assuntos, a entrevista, claro, falou de política. Em determinado momento, ao ser questionado por Letterman sobre os desafios da democracia americana quando um governo estrangeiro manipula as eleições (se referindo as supostas fake news” criadas por russos que teriam ajudado Trump), Obama começa sua interessantíssima reflexão sobre as chamadas “bolhas sociais”.

“Um dos maiores desafios da nossa democracia é o grau em que não compartilhamos uma base comum dos fatos”.

O ex-presidente segue sua fala citando o ex-senador Daniel Patrick Maynihan que, certa vez, durante uma discussão com um colega que, nas palavras de Obama, era dos “menos capazes“, teria dito que “todo mundo tem direito a sua própria opinião, mas não aos seus próprios fatos“.

O argumento de Maynihan me fez lembrar algumas discussões que já presenciei na internet. Não é raro as pessoas utilizarem o argumento “essa é a sua opinião” ao serem questionadas sobre a vericidade de alguma notícia. Isso, se deve, em partes, às bolhas sociais que estão sendo criadas sem que você perceba.

Por exemplo:

Se você é fã de determinado político, muito provavelmente acompanhará e seguirá pessoas que pensem como você. Esses caras, mesmo que inconscientemente, podem compartilhar fake news sobre seus rivais que você levará como verdade absoluta caso não cheque a veracidade dos fatos – e, acredite, a grande maioria não checa.

Além disso, acompanhar apenas quem tem as mesmas opiniões que você, independente dos fatos, faz com que os debates sejam enfraquecidos e se tornem apenas uma troca de ofensas gratuitas – e aí temos a polarização. Quem nunca leu algo como “a esquerda isso” ou “a direita isso” nos últimos tempos?

A polarização faz com que a troca de ideias seja impossível. Quem está vivendo em sua bolha, cego por fake news, não consegue enxergar uma qualidade sequer em seus oponentes, muito menos debater em alto nível – é nesse momento que você vê no WhatsApp a mensagem “Fulano saiu do Grupo Família“.

Ao citar Maynihan, Obama observa que a interferência russa tinha apenas explorado o fato de que as pessoas operam em universos de informações diferentes.

“Se você assiste à Fox News* (nota do autor: a Fox é pró-Trump), você vive em outro planeta do que se ouvir a rádio NPR”.

*Troque a Fox News por alguma emissora brasileira de TV à sua escolha e a NPR por algum veículo de comunicação supostamente imparcial e você saberá do que o Obama está falando.

A influência dos algoritmos na criação das bolhas sociais

Não bastasse nossa tendência de acompanhar apenas quem tem as mesmas opiniões que a gente, as redes sociais, através de seus algoritmos cada vez mais inteligentes, ajudam na criação das bolhas sociais mostrando apenas notícias que seriam supostamente de nosso interesse de acordo com nossas interações na rede – sim, suas curtidas e compartilhamentos influenciam no que aparece no seu feed de notícias ou em suas buscas no Google.

Obama citou sua famosa campanha “Yes We Can“, nos primórdios do Twitter, para contextualizar como não estávamos preparados, na época, para o uso de uma ferramenta tão poderosa.

“Na nossa campanha, em 2007, 2008, fomos os primeiros a usar redes sociais. E nós dependíamos de jovens de 22, 23 anos e voluntários compartilhando, e eles não paravam. Comunicavam-se apenas por redes sociais e nós construímos o que acabou sendo a mais eficiente campanha da história da política moderna. Eu estava muito otimista. Acho que não percebemos o grau no qual as pessoas no poder, as que têm interesses especiais, os governos estrangeiros, etc, podem, de fato, manipular isso e propagandear”.

Letterman brincou dizendo ter “a impressão de que o Twitter seria o mecanismo usado para propagar a verdade pelo mundo“. Embora o tom usado tenha sido de ironia, quem acompanhou a Primavera Árabe no Twitter como eu, na época um estudante de Relações Internacionais de olho no cenário mundial e empolgado com as redes sociais, certamente teve a mesma impressão.

Obama citou a Revolução do Egito de 2011 para exemplificar a influência das nossas interações online no conteúdo que nos é mostrado nas redes sociais ou em mecanismos de busca.

“Se você obtém toda a sua informação de algoritmos enviados por um telefone, ela reforça as suas tendências, que são um padrão que se desenvolve. Fizeram um experimento interessante. Não foi científico, foi só o experimento que alguém fez na revolução ocorrida no Egito, na Praça Tahrir. Pegaram um liberal, um conservador e um ‘moderado’ e lhes pediram uma pesquisa no Google. ‘Egito, digitem’. Para o conservador, apareceu ‘Irmandade Muçulmana’. Para o liberal, ‘Praça Tahrir’. Para o ‘moderado’, ‘Locais de férias no Nilo’. (…) É o que o ocorre com as páginas do Facebook de onde as pessoas tiram as suas notícias. Uma hora, você está em uma bolha. Em parte, é por isso que nossa política está tão polarizada”.

O experimento citado por Obama não foi científico, como ele mesmo pontua, porém, um estudo de 2015 da Science Magazine chamado “Exposure to ideologically diverse news and opinion on Facebook” mostra como os algoritmos utilizados pelo Facebook para filtrar as postagens têm efeito nas informações vistas pelos usuários.

O estudo concluiu que “em comparação com a classificação algorítmica, as escolhas dos indivíduos sobre o que consumir tinham um efeito mais forte, limitando a exposição a conteúdo (ideologicamente) transversal“.

Isso explica o experimento do Egito, as bolhas sociais, a polarização na política e porque 2018 no Brasil será o ano em que amizades serão desfeitas e familiares entrarão em pé de guerra nos seus grupos de WhatsApp.

Boa sorte para todos nós!

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Nômade digital que escreve e empreende. Eleito pelo LinkedIn como o terceiro brasileiro mais influente da rede em 2016. Cofundador do be freela. Você também pode ler meus conteúdos no HuffPost, no Transformação Digital e na Comunidade Rock Content.