Viajar o mundo enquanto se trabalha de forma remota. Em poucas palavras, essa é a explicação para a essência do nomadismo digital.

Pra quem vê de fora, talvez soe mais como um modismo ou então um sonho inalcançável. Eu mesmo me encaixava no segundo grupo. Hoje, como freelancer e trabalhando de forma remota, descobri que isso é totalmente possível. É uma questão de escolhas. Uma questão de estilo de vida.

A verdade é que com o aumento contínuo das oportunidades de trabalho remotas, espaços de coworking e a vasta gama de ferramentas digitais que temos à nossa disposição, esse modelo de trabalho, com mais liberdade e qualidade de vida, deixou de ser um sonho de consumo e tornou-se realidade pra muita gente.

Mas ainda existem muitos mitos sobre os nômades digitais. Recentemente, ao publicar uma foto onde, numa terça-feira, eu estava na serra catarinense trabalhando remotamente para um cliente de Porto Alegre (RS), recebi uma dezena de comentários do tipo “esse é o meu sonho de consumo” ou “essa é a vida que eu sempre quis“. Percebi que alguns, inclusive, tiveram uma ideia errada do que faço ou do que é o nomadismo digital. E é sobre isso que quero falar neste artigo.

Vida perfeita?

Esqueça esse conceito de vida perfeita e lembre-se daquele velho ditado que diz que “a grama do vizinho é sempre mais verde“. Partindo do princípio de que não há certo ou errado e de que, como mencionei anteriormente, trata-se mais de uma questão de escolhas, não projete no nomadismo digital o caminho para a felicidade. Há muitos mitos nesse modelo de trabalho.

Pra começar, fuja do senso comum. Como assim?

Ao digitar “nômades digitais” no Google Imagens você verá vários jovens com seus notebooks em praias paradisíacas. Isso é falso? Não. Mas também não é a realidade. É um mito — guarda um fundo de verdade. Veja o exemplo abaixo.

No final deste ano eu e minha esposa, que é fotógrafa e blogueira, passaremos uma temporada no sudeste asiático — a meca dos nômades digitais. Durante esse período e nos meses seguintes, se você me segue no Instagram, certamente verá várias fotos nossas em cenários incríveis. Essas fotos, inclusive, estarão presentes em futuros conteúdos que produzirei. E é aí que está o problema que, na minha opinião, se dá por ingenuidade — ou mesmo desconhecimento.

  • Onde está a verdade nessa história?

No modelo de trabalho. Sim, é possível trabalhar de forma remota numa praia paradisíaca. Somos prova disso.

  • Onde está o mito?

Este não é o nosso dia a dia — e aposto que também não é o dos caras que aparecem naquelas fotos. Ao longo do ano eu e a Laís trabalhamos de forma remota, mas em nossa casa — o que também é sensacional e recomendo. Fizemos algumas curtas viagens pelo Brasil, mas essa para o sudeste asiático será o ponto fora da curva, não o padrão. O mito está na vida perfeita do Instagram.

Viajar não é coisa de rico

Uma coisa que aprendi cedo é que viajar não é coisa de rico. Independente se você faz isso como modelo de trabalho ou de férias. Mais uma vez, é uma questão de escolhas.

Assim que saí da faculdade, fiz um mochilão para a Europa. No ano seguinte, viajei para os Estados Unidos. Aos 25 anos eu já conhecia quase 10 países. E, acredite se quiser, ganhando pouco menos de R$ 2 mil.

E qual a fórmula mágica pra isso?

Escolhas. Um cara que não tem carro, não tem filhos e não gasta com baladas ou roupas de marca, sempre terá dinheiro no final do mês. Independente de ganhar R$ 10 ou R$ 2 mil por mês. Poupando e se planejando, você chega lá — a passagem, por exemplo, você parcela em 10x no cartão. Economizei, na época, R$ 500 por mês durante 1 ano e foi assim que fiz as viagens que citei acima. Deixei de fazer várias coisas durante aquele período, mas, como falei: escolhas!

Agora, e essa pro sudeste asiático? Deve ser caro viajar pra lá, né? Mito.

Uma das vantagens de ser um nômade digital é não precisar estar de férias para fazer uma viagem longa. O que fizemos foi o seguinte: ativamos as notificações de sites e aplicativos que divulgam promoções de passagens aéreas. Nesse caso, não há planejamento: como temos mobilidade geográfica e liberdade, “abraçamos” o que vier e couber em nosso bolso.

Numa bela manhã, recebemos um aviso de que havia uma promoção de passagens aéreas para a Coreia do Sul. Geralmente, com taxas inclusas, o valor de um bilhete pra lá fica na média de R$ 5 mil. Saindo do aeroporto de Florianópolis, aqui pertinho de onde moramos, o valor estava R$ 1.500 por pessoa — e com taxas! Por mais que a Coreia não seja um destino dos sonhos pra gente (nada contra o país, mas nunca foi um sonho nosso), de lá podemos ir para a Tailândia através de companhias low cost pagando bem menos do que, por exemplo, gasto quando viajo para São Paulo.

Matheus de Souza - nômades digitais
Nem sempre você vai trabalhar com uma vista dessas enquanto toma uma cervejinha. Foto: Laís Schulz Fotografia

Os Novos Ricos

Tim Ferriss, autor do best-seller Trabalhe 4 Horas por Semana“, é o cara que popularizou esse modelo de trabalho e é visto como um guru para os nômades digitais.

Ele tem um conceito legal que chama de Novos Ricos.

“O ouro está ficando velho. Os Novos Ricos (NR) são aqueles que abandonam os planos de uma vida adiada e criam estilos de vida luxuosos no presente, usando uma moeda dos Novos Ricos: tempo e mobilidade. Isso é uma arte e uma ciência a que nos referiremos daqui em diante como Projeto de Vida (PV).” (Timothy Ferriss)

O conceito de riqueza abordado no livro é interessante. Quem está insatisfeito num trabalho, geralmente, procura o quê?

Eu chutaria liberdade, flexibilidade e tempo. E dinheiro, talvez. Mas, principalmente, tempo. Fugir do trânsito, dos ônibus lotados e, claro, ter mais tempo para desfrutar com os entes queridos.

O ponto de Tim é que, pelo menos na visão dos nômades digitais, rico é quem consegue ter um bom padrão de vida enquanto tem tempo para desfrutar de seu dinheiro. Há tempos atrás a ideia de riqueza era ter uma mansão luxuosa, um carro importado, um iate ou uma fazenda. Ter, ter, ter. Dinheiro é bom — e eu gosto muito do que ele pode nos trazer, não serei hipócrita —, mas nosso ativo mais importante é o tempo.

Mais uma vez, essa é uma questão de escolhas.

Mas, e como conseguir um trabalho desses?

Na boa, um cara que quer ter um estilo de vida desses e tem isso como objetivo de vida, não apenas como possibilidade, não vai me perguntar isso. Ele não vai esperar ninguém o pegar pela mão. Ele irá atrás das coisas e, por conta própria, descobrirá como e o que fazer. Irá agir.

Dito isso, a questão aqui, na minha opinião, não é conseguir um emprego: é criar um emprego. É o que tenho feito trabalhando como freelancer e, mais recentemente, através do meu curso online. Em linhas gerais, quando eu estiver na Ásia, simplesmente tocarei meus negócios de lá. Ou seja, levarei meu trabalho na mochila. Tudo o que precisarei para realizar minhas atividades será uma boa conexão de internet.

Agora, se você não consegue vislumbrar esse cenário dentro da sua realidade, alguns sites podem te ajudar a procurar algo. Minha dica é fazer um teste: veja esses trabalhos remotos como uma renda extra. Quando se sentir confortável e tiver um planejamento viável, talvez seja a hora de sair do seu emprego convencional e apostar no nomadismo digital.

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Nômade digital que escreve, empreende e ensina. Eleito pelo LinkedIn como o terceiro brasileiro mais influente da rede em 2016. Cofundador do be freela. Você também pode ler meus conteúdos no HuffPost, no Transformação Digital, Comunidade Rock Content e no Medium.