Idade é um paradoxo.

Em maio completei 29 anos. Os 30 estão na porta. E, prestes a me tornar um balzaquiano, começo a entender um pouquinho mais sobre esse negócio de “amadurecimento”, coisa que nossos pais nos falam quando somos adolescentes, mas não prestamos atenção porque… bem, porque somos adolescentes.

2016 foi o ano em que minha carreira deslanchou. Eu tinha 27 anos quando o LinkedIn, a empresa, não um usuário da rede, fez uma lista com os brasileiros mais influentes daquele ano. Meu nome está lá, na terceira posição, em meio a figurinhas carimbadas que você deve conhecer bem. Para os desavisados isso pode não parecer muita coisa, mas para quem vive de produzir conteúdos, como eu, é uma validação. Uma espécie de Oscar do marketing de conteúdo no LinkedIn, por mais específico e aleatório que isso soe e, de fato, seja.

Mas, voltemos a idade.

27 anos. A idade em que Jimi Hendrix, Janis Joplin, Jim Morrison, Kurt Cobain e Amy Winehouse nos deixaram. O “Clube dos 27”, visto com saudosismo hoje em dia e colocado num pedestal. Seus membros são considerados gênios de suas gerações. Aos 27.

Aos 27 meu clube era outro. Eu era do clube dos perdedores.

Aos 27 eu pensava ser um fracasso total, afinal, tanta gente mais nova havia conseguido sucesso em suas áreas e eu estava lá, entregando uns panfletos, atendendo telefonemas sem sentido, pensando no tanto de horas de vida perdidas diariamente.

Você se compara com os jovens mi ou bilionários de alguma lista da Forbes, os startupeiros do Silício, os jogadores de futebol, os YouTubers, as blogueiras… Guris e gurias, para usar o vocábulo de onde venho, que antes dos 23 já tinham acumulado fortunas. Ou não. Mas que estão em alguma lista qualquer que os separa dos meros mortais, como nós, nos causando inveja.

E você lá, aos 27, graduado, pós-graduado, com o inglês mais afiado que o do Joel Santana, mas fodido, fazendo contas para pagar o aluguel, fazendo bicos para completar a renda enquanto pensa no que deu errado, tentando empreender e percebendo que sua ideia genial talvez não seja tão genial assim.

Na minha cabeça, na cabeça do Matheus de 27 anos, ou seja, de apenas dois anos atrás, eu estava velho. Ainda não havia conquistado nada. E, dadas as cartas que eu tinha na mesa, provavelmente não conquistaria nada nem no mais longo dos prazos.

Nunca pensei que esse momento chegaria, mas me sinto obrigado a citar um trecho de uma música da Sandy, aquela que fazia dupla com o Júnior, para ilustrar esse momento:

“Tenho sonhos adolescentes,

mas as costas doem,

sou jovem pra ser velha,

e velha pra ser jovem.”

A filha do Xororó (ou do Chitãozinho?) colocou num verso de uma canção qualquer, que você provavelmente nunca ouviu, as lamúrias do jovem e da jovem, já não tão jovens ainda, que se aproximam dos 30.

idade-número-estúpido

A virada do cara que era jovem pra ser velho, mas velho pra ser jovem

Eu comecei 2016 na merda e terminei ele como o cara mais foda da minha rua – eu poderia dizer da minha cidade, mas tem um YouTuber aqui de Tubarão (SC), o Luba, que estourou no mesmo ano e é seguido por milhões na rede social ao lado – e vou falar pra vocês que ele é mais jovem que eu.

O negócio é que, do nada, as coisas mudaram. Como mágica. Se antes os 27 significavam fracasso, agora despertavam curiosidade nos ~internautas~ e eram sinônimo de sucesso. Afinal de contas, eu havia me tornado um jovem de 27 anos com destaque na imprensa nacional – e não mais um adulto fracassado de 27 anos. Eu havia entrado numa dessas listas que segregam sucesso e fracasso se você estiver no lugar certo e na hora certa.

Essa é a explicação simples e cômoda, claro. Entre choros no banheiro da empresa, daqueles que você desliza suas costas até o chão pela porta gelada, e doses de whisky vagabundo para aliviar a barra (não me orgulho disso, que fique claro – não pelo whisky em si, mas pelo fato de ser vagabundo), havia também uma puta vontade de mudar a realidade, sangue nos olhos, felizmente que não literalmente, e muito, mas muito trabalho. Muito conteúdo produzido, pago ou não, geralmente não pago, para posicionar meu nome como referência no que faço.

Escrevo essas linhas não para me gabar do rumo que minha carreira tomou, embora eu tenha total orgulho da minha trajetória até aqui, mals aí, e para ser sincero não nem aí se você pensa que apenas me autopromovo ao escrever isso, felizmente passei dessa fase de preocupação com a opinião alheia, mas o que quero mesmo é passar um papo reto sobre idade. O tal número que pode nos deprimir numa terça-feira gelada de agosto, o mês do desgosto.

Mark Hoppus, baixista e um dos vocalistas do blink-182, minha banda favorita da adolescência, e isso talvez explique muita coisa, disse certa vez que a “idade é só um número estúpido”.

E ele tinha razão quando disse isso. Na minha opinião, pelo menos.

Não se apegue ao tal número estúpido se as coisas não estiverem do jeito que você sonhava anos antes. A idade, muito provavelmente, não seja a resposta para a sua situação atual. Ênfase no muito provavelmente, já que eu não faço ideia das tuas lutas diárias.

Podemos usar uns clichês aqui, falar que “a grama do vizinho é sempre mais verde”, que o Roberto Marinho fundou a Rede Globo depois dos 60, mas a real é que cada um tem seu tempo. Seja para fundar um império bilionário ou conseguir uma promoção na firma.

Não existe métrica que determine a felicidade. Não existe hack que aumente em 468% a sua satisfação com o seu trabalho. Não existe resolução de problemas ao comentar “eu quero” numa publicação qualquer no LinkedIn.

Existe aceitar que as coisas deram errado até então por demérito seu e buscar formas de alterar essa linha do tempo futura. Com ações reais. Sem atalhos. Pensando sempre no longo prazo. Ou no médio, caso você não seja mais tão jovem assim.

Entretanto, e eu gosto do uso dessa palavra para quebrar um pensamento, reforço que o conceito de jovem, para o bem ou para o mal, é relativo e está dentro da nossa cabeça. E só dela.

Não do vizinho, aquele com a grama verde e milimetricamente cortada, como o cabelo do empreendedor de sapatênis que apara suas madeixas já escassas na barbearia hipster que serve chope e amendoim em meio aos fios que flanam até encontrar uma superfície, sólida ou não, onde a penugem humana descansa até encontrar lábios alheios ou as vassouras da casa que vende não um serviço, mas uma experiência.

Ok, fui longe no raciocínio. Seguimos adiante com a lição por trás de todo esse blá blá blá.

Meu ponto, ou my point, e eu gosto de usar essa expressão de forma literal porque mostra que às vezes penso em inglês, seja lá o que isso queira dizer, para quem de fato diz isso de forma séria em summits por aí, é que a idade é uma questão de estar bem consigo mesmo.

Hoje, aos 29, quase 30, me sinto mais jovem do que aos 27. Ou mesmo do que aos 19, já que naquela época eu não sabia porra nenhuma da vida.

E, confesso que sigo sem saber muita coisa, mas tenho me esforçado. E disfarçado.

Tanto no profissional como no pessoal.

E é isso. Nada mais do que isso.

Ô loco, bicho!

Disclaimer (conhecido também em português como “aviso legal”): Esse texto contém uma alta dose de ironia. Alta mesmo. Não ouso apontar, entretanto, em qual(is) parte(s). A interpretação é por sua conta. E risco. Consuma esse conteúdo com moderação. E não me encha o saco nos comentários.

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Nômade digital que escreve e empreende. Eleito pelo LinkedIn como o terceiro brasileiro mais influente da rede em 2016. Cofundador do be freela. Você também pode ler meus conteúdos no HuffPost, no Transformação Digital e na Comunidade Rock Content.