Não sei quais os grandes sonhos das crianças de hoje em dia, mas, quando eu era apenas um moleque na década de 1990, o principal objetivo dos meninos da minha idade era ser um jogador de futebol. O próximo Romário ou Ronaldo, quem sabe.

Influenciado pelo meu pai, cresci um daqueles flamenguistas fanáticos. Sonhava com o Maracanã lotado gritando o meu nome. Fazer o gol de um título importante no último minuto contra o Vasco. Coisas do tipo. Tipo o Petkovic no tricampeonato carioca de 2001, lembram?

Já Galvão Bueno — aquele! — foi o responsável pelo sonho de vestir a amarelinha. Que falem mal os haters, mas, imagine só ter um gol seu narrado pelo mito da narração esportiva? Então, eu imaginava isso todos os dias…

Foto tirada pela minha mãe pouco antes da final da Copa do Mundo de 1998.

Aos 9 anos de idade descobri que sonhos são bem diferentes da realidade. Se antes as aulas de educação física na escola tinham um espírito lúdico, agora, eu entenderia pela primeira vez o significado da palavra “competição” — algo que veria novamente, anos mais tarde, num negócio chamado “mercado de trabalho”.

O dia em que conheci o significado da palavra “individualismo

Quando o professor Carlos, na Escola de Educação Básica Henrique Lage, na pequena Imbituba do litoral catarinense, avisou a turma que o aluno que marcasse 100 gols no ano (nas nossas contas, claro, estilo Túlio Maravilha) receberia um troféu pelo seu feito, conheci outro termo que também veria mais tarde nesse tal de “mercado de trabalho”: o tal do “individualismo”.

Sabem aquela treta Neymar x Cavani no PSG? Essa virou a realidade dos garotos do Henrique Lage em 1998: todos queriam marcar gols. O troféu de artilheiro do ano virou o objetivo da garotada.

No centro da foto está o professor Carlos, eu (de moletom azul dos Cavaleiros do Zodíaco) e o Juliano. Também houve premiação entre as meninas que jogavam conosco.

Quando meu colega Juliano marcou seu centésimo gol e recebeu o troféu na próxima aula em sessão solene com a presença de seus pais — enquanto eu havia marcado apenas uns 20 gols —, entendi outro conceito que levaria para a minha carreira profissional.

Limitações

Sim, eu não era o melhor. Sequer era bom. Era razoável com a bola nos pés. E, pra uma criança aceitar isso, não é fácil. Convenhamos.

Quando meus pais me matricularam na Escolinha do Peixe, essas limitações ficaram ainda mais claras. Havia muito mais Julianos por lá. Em 2 anos sem faltar um treino sequer, fui convocado para apenas dois jogos. Aquilo foi um banho de água fria nos meus sonhos de vestir as camisas do Flamengo e da seleção brasileira.

Nesse período de desilusão ganhei meu primeiro PlayStation. O jogo da época era o Winning Eleven (o Pro Evolution Soccer de hoje). Pelo menos ali, naquele mundo virtual, eu conseguia realizar meus sonhos. Bastava criar um jogador que levava meu nome e colocá-lo para jogar ao lado de Ronaldo, Ronaldinho, Rivaldo e Roberto Carlos.

O futebol virtual, de certa forma, reacendeu minha paixão pelo esporte — até então desiludida pelos Julianos. Mas falaremos disso mais adiante.

Foi um cara chamado Elvis, de apelido Pita, que me ensinou a lição mais valiosa que aprendi com o futebol: não adianta só talento; é preciso trabalho duro.

Limitado, mas esforçado

Desiludido na Escolinha do Peixe, me matriculei por conta própria na Pita Soccer School — o Pita morou um tempo nos EUA, por isso o nome. E esse período entre 2002 e 2006, de certa forma, moldou quem eu sou hoje.

Aos 14 anos, vestindo a camisa da Pita Soccer School, num campeonato em Brusque (SC).

Eu poderia não ser o cara mais talentoso, mas era um dos mais esforçados. E o Pita valorizava isso. Assim como fazia nos tempos do Peixe, eu só faltava nos treinamentos em caso de doença. Porém, dessa vez, o trabalho duro era recompensado. Eu sempre era convocado para os jogos e, muito raramente, ficava no banco de reservas. Era o camisa 9 e tinha a confiança do treinador — embora não fizesse muitos gols. Ou gols, para ser sincero…

Com o tempo, com os treinamentos e, como os boleiros gostam de dizer, com “as oportunidades oferecidas pelo professor”, fui melhorando meu futebol. E isso me motivou.

Motivação

É consenso que um profissional desmotivado não produz. E é aí que o Pita fez a grande diferença no profissional que sou hoje. Eu sabia das minhas limitações, sabia que eu não era um Juliano, mas ele confiava em mim, via algo no jeito que eu jogava bola e valorizava meu esforço. Isso, de certa forma, colocava minha moral em alta.

E, mais do que isso: fazia com que todos os garotos trabalhassem em equipe. Sabíamos que, por mais que tivéssemos nossas limitações, juntos éramos mais fortes.

Esse é, na minha opinião, o maior papel de um líder. Em uma equipe lidamos com diferentes perfis, diferentes personalidades, diferentes habilidades. Cabe ao gestor entender como aproveitar o potencial de cada indivíduo. Isso é algo que o Pita sempre fez muito bem, talvez por ter sido um ex-jogador (jogou em times como Criciúma e Coritiba), então sempre tive a tranquilidade de entrar em campo e dar o meu melhor — mesmo esse melhor não sendo o de um Juliano, eu me esforçava ao máximo para fazer valer sua confiança em mim. E é por isso que o considero como o melhor gestor que já tive.

O futebol além do Pita — e como ser criança me ajudou na vida adulta (e profissional)

Minhas melhores lembranças da infância, aquelas que tiramos lições valiosas que levamos para o resto de nossas vidas, vem do tempo em que joguei futebol na Pita Soccer School. Porém, o futebol tem algumas histórias interessantíssimas na minha vida que vão além dos treinos e jogos e que me tornaram o profissional que sou hoje — para quem pensa que futebol “é só um jogo”.

Se hoje sou fluente em inglês, a “culpa” é do futebol. Sim. Do futebol virtual que mencionei anteriormente. Nas primeiras gerações de videogames não existiam jogos em português, então tínhamos que nos virar. Com um dicionário de inglês-português ao lado do controle, tive meu primeiro contato com a língua e desenvolvi meu vocabulário.

Uma outra paixão futebolística da minha infância foram os álbuns de figurinhas. Principalmente os das Copas do Mundo. Era uma oportunidade incrível de conhecer outras culturas. As páginas das seleções vinham com informações detalhadas dos jogadores como, por exemplo, suas cidades natais. Lembro de folhear meu Almanaque Abril (não tínhamos internet naquela época…) para pesquisar sobre os locais de nascimento dos atletas. Muito do que sei da geografia e da história mundial vem daí. Assim como a minha curiosidade e a vontade de aprender: são características que me acompanharam na vida adulta.

Algo que também marcou bastante a minha infância e contribuiu para o meu aprendizado sobre finanças e administração foi um jogo chamado Football Manager (na época conhecido como Championship Manager).

No FM, ao invés de controlarmos os jogadores como nos games tradicionais, atuamos como managers dos times. Ou seja, além de treinadores, temos que cuidar de assuntos como transferências de jogadores, folha salarial, relacionamento entre os atletas, merchandising, entre outras responsabilidades — aliás, de vez em quando ainda jogo FM. É um simulador de futebol incrível que quem gosta de jogos de estratégia (e de futebol, claro) vai adorar. Através dele, ainda criança, tive uma boa noção sobre as dificuldades de se administrar um negócio — é bem mais fácil chutar uma bola no gol.

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28 anos, catarinense, escritor, empreendedor e freelancer em marketing digital. Eleito pelo LinkedIn como o terceiro brasileiro mais influente da rede em 2016. Escreve também no HuffPost e no Transformação Digital.