O que escrevo agora aconteceu muito comigo nos últimos anos.

E quero tratar esse texto como uma carta.

Uma carta para o Matheus de 2, 3 ou 4 anos atrás.

Uma carta para tantos outros “Matheuses” espalhados por aí.

Querido Matheus,

Você se sentará em algum lugar — talvez em uma cafeteria, na sala de convivência do trabalho, no banco de uma rodoviária ou mesmo na cozinha do seu apartamento — e, do nada, um pensamento triste surgirá em sua mente como se um raio tivesse atravessado sua cabeça.

“Por que eu ainda não obtive sucesso em minha carreira profissional?”

Você era um prodígio na escola. Sempre teve as melhores notas.

Quando começou a trabalhar, todos o elogiavam pelo seu empenho e por suas expertises.

Você pensa que, talvez, tenha se perdido no caminho.

Afinal…

Você dizia na faculdade que queria conquistar seu primeiro milhão aos 30. Aos 26, ainda trabalha apenas para pagar as contas.

Você dizia que lançaria um negócio que lhe faria ganhar muito dinheiro. Continua trabalhando para os outros.

Você dizia que faria a diferença no mundo. Não se vê fazendo isso nem no escritório.

Você dizia que em poucos anos seria um executivo bem sucedido que viajaria o mundo. Ainda faz bicos para complementar a renda.

Nada do que você sonhou se realizou.

Me desculpe o tom sensacionalista, mas é que quero fazer um contraponto aqui.

Talvez você esteja em pânico agora — especialmente se olhar ao seu redor. É fácil olhar para os outros e comparar seu próprio caminho com o deles.

Por que somos tão obcecados com o tempo?

Mark Zuckerberg, fundador do Facebook, se tornou bilionário antes dos 30.

Evan Spiegel, fundador do Snapchat, também.

Bill Gates e Steve Jobs largaram a faculdade e criaram negócios bilionários — também antes dos 30. Eu deveria ter feito isso!

Fulano publicou seu primeiro livro aos 23!

Ciclano se tornou CEO daquela empresa aos 40!

E daí? Eles são não você. Você não é eles.

Mas, talvez você ainda esteja pensando: por que não posso ser como eles?

Todo mundo tem seu próprio caminho.

Eu sei, isso parece clichê. E é bem óbvio. Mas você está em pânico, lembra? Não consegue ter clareza em seus pensamentos para enxergar isso. E isso acontece porque você tenta controlar o seu futuro. Toda vez que você sente que sua vida não é como deveria ser, você tem esses pensamentos negativos — já viu algo bom sair da negatividade?

Respire fundo.

Agora, compreenda isso: o seu trabalho é importante, parceiro.

A maior parte da nossa infelicidade vem de acreditar que ninguém dá a mínima pra gente.

É mais fácil sentir-se irrelevante num mundo com 7 bilhões de pessoas do que achar que você faz alguma diferença. Você acorda, vai trabalhar, volta pra casa, assiste um pouco de TV e vai dormir. E assim é sua semana.

Você dará duro no trabalho, baterá metas, surpreenderá a todos. Mas, nada vai acontecer. Você continuará no mesmo lugar. Ao ponto de se esquecer — ou mesmo não perceber — que seu trabalho é útil.

Qual é a alternativa? Você vai desistir? Encher a cara de cerveja e culpar o mundo pelo seu insucesso? O mundo não é um romance do Jack Kerouac, meu amigo. A vida na estrada não é tão glamurosa quanto parece.

Acredite.

Acredite que seu trabalho é importante. Os dias que você passou na recepção da empresa. Os panfletos que entregou no semáforo. Tudo aquilo é importante.

Aja como se o que você faz fizesse diferença, porque faz“, disse o filósofo William James.

Há uma crença coletiva de que devemos fazer coisas grandiosas para que nosso trabalho seja considerado relevante. Devemos ser os próximos Zuckerbergs. Devemos lançar a próxima startup que será vendida por milhões no Vale do Silício. Devemos encontrar a cura para o câncer — isso nós realmente precisamos encontrar logo, mas não quer dizer que precisa ser você.

Meu ponto é que você não precisa parar uma guerra para contribuir com o mundo. Você não precisa ser famoso para se tornar uma pessoa importante e fazer a diferença.

Talvez, ainda assim, você queira fazer coisas grandiosas. E isso é ótimo. Mas lembre-se que você não pode controlar sua vida.

Levará tempo para você chegar onde quer. Parecerá uma eternidade, mas isso não significa que sua jornada será inútil.

“A vida é curta, a arte é longa, a oportunidade é fugaz, a experiência enganosa, o julgamento difícil”. (Hipócrates, médico grego)

A vida é curta, a arte é longa. Pense nisso.

Você pode morrer hoje ou amanhã. Daqui uma semana ou um ano. Daqui dez ou trinta anos. Você não sabe.

Mas a arte que você cria, durará. E por arte, não quero dizer um quadro, uma música ou um livro.

Nunca pare de aprender. Leia livros que mudem sua vida.

Lembra daquelas vezes em que você ficou puto ao entregar panfletos no semáforo praquela faculdade em que trabalhava? Você se sentia humilhado.

Foi pra isso que fiz MBA? — você se perguntava.

You know nothing, Jon Snow. Sabe de nada, inocente.

Bom, saiba que você mudou o rumo da vida daquele cara que pegou o panfleto e se matriculou naquele curso. Se aquele cara teve filhos, uma outra geração foi impactada pelo seu trabalho. Talvez você não enxergue a dimensão disso, mas faz parte do seu legado. Faz parte da sua arte. Aquele seu trabalho que você odiava, no final das contas, era útil para a sociedade. E tenho certeza que o dos outros Matheuses, também.

Você é um artista.

Uma coisa que você vai aprender, como alguém que cria sua arte, é não pedir a opinião de ninguém. Especialmente de familiares. Não me entenda mal, eles querem o seu bem. E esse é o motivo pelo qual lhe freiam. Eles não querem que você corra riscos, mas seja fiel à sua própria visão. Confie nos seus instintos. Nunca comprometa a sua arte.

A arte precisa do gênio individual.

Novamente, confie nos seus instintos.

Então, amigo, preste atenção:

  • Acredite em sua própria visão. Por que você precisaria da opinião de terceiros?
  • Não duvide de si mesmo. Tenha confiança na sua arte.
  • Não dê desculpas. Se não quiser fazer algo, simplesmente não faça. O contrário também é totalmente válido. Não há meio termo.

Não sei se você já se tocou disso, mas, seu trabalho é importante.

Perceba que tudo o que você está fazendo agora é importante. De alguma forma, é importante. Você precisa pensar assim. Ah, e você também precisa parar de se comparar com pessoas que estão em estágios diferentes em suas vidas.

Mesmo que isso te custe chorar escondido no banheiro da empresa.

E daí que fulano foi promovido? Agora ele terá mais responsabilidades. Será que o dinheiro vale o stress?

E daí que seu vizinho comprou uma BMW? Você não sabe quanto — e se — ele tem dinheiro no banco.

Esqueça, de uma vez por todas, essa merda chamada comparação. Fui claro, agora?

E esqueça, também, esse pensamento de bosta de que ninguém se importa com você. Autopiedade? Aqui não!

Abra seus olhos e veja o mundo ao seu redor.

Eu não sei se você está agora em uma cafeteria, na sala de convivência do trabalho, no banco de uma rodoviária ou mesmo na cozinha do seu apartamento. Mas olhe em volta. Perceba os detalhes. Respire fundo. Pegue um café. Coloque “Bird of Sorrow” do Glen Hansard pra tocar. Deixe que esses pensamentos negativos sejam mortos pela vida lá fora. Você está vivo, afinal de contas. Seja grato por isso!

Por último, não se trata de confiar no universo, no seu signo ou em algum Deus. Trata-se de confiar em si mesmo. E sempre será assim.

O seu trabalho não precisa fazer sentido.

Ele precisa apenas existir.

E se você o tratar como algo importante, ele importará.

Lembre dos panfletos.

***

Ah, eu quase ia esquecendo, Matheus.

Matheus de Souza, não os outros Matheuses.

Quando você tiver uns 27, por aí, descobrirá que alguém precisa escrever o óbvio.

Essa é a sua arte. E o seu legado.

Aceite e ame o que está por vir.

Com amor, escreve o seu eu de 28 anos de idade em 13 de junho de 2017, no seu apartamento em Tubarão, Santa Catarina, Brasil, enquanto a Laís lhe espera para mostrar algo no celular. Hoje, você é escritor, empreendedor e freelancer em marketing digital. Ano passado foi eleito pelo LinkedIn como o terceiro brasileiro mais influente da rede. Mas, o mais importante: você acreditou que o seu trabalho importa.

28 anos, catarinense, escritor, empreendedor, growth hacker, guitarrista frustrado, marido da Laís. Eleito pelo LinkedIn como o terceiro brasileiro mais influente da rede em 2016.

  • Vivemos muito acelerados porque outros conseguiram chegar ao topo antes dos trinta. Como a Amy Pohler diz: “que bom para eles mas não para mim”. Cada vez mais sigo uma ideia muito vinculada pelo Gary Vaynerchuk – faça o seu negócio todos os dias, mas faça. Ele vai demorar a acontecer, não vai ser famoso da noite para o dia, os primeiros meses são uma seca porque não tem público ou não tem vendas. Mas é no colocar tijolo em cima de tijolo que se constrói uma casa – porque é que não pensamos assim quando é sobre o nosso negócio, ou mais, o nosso LEGADO?
    Acho que o objetivo não é chegar ao objetivo antes dos 30 anos, mas sim chegar ao objetivo com uma jornada de aprendizagem fantástica!

    • Perfeito, @disqus_mrAs48RCqv:disqus! Também não me apego mais a idade para chegar lá – afinal, a idade é apenas um número.

      Obrigado pelo comentário!

  • Juliana Jakomulsky

    Vislumbrei o caminho, sei que este seria uma boa alternativa para minha carreira, mas não tenho idéia de como começar, tenho muitos relampejos diários sobre diversos assuntos, e fico a passar e repassar o texto em minha cabeça…é até cômico! Trabalho de Assistente de RH em uma contabilidade, e muitas vezes me sinto assim, estudei, me formei, fiz cursos…e parece que não faz sentido nada disso! Procuro sempre ser positiva e acreditar que estou fazendo o melhor dentro das minhas possibilidades, 35 anos, dois filhos, uma marido…rsrsrs ainda bem que é só um né!!! Que se exploda a idade, eu Juliana Jakomulsky da Silva quero ser feliz, e acredito que será nesse novo mundo digital!! Abraço Matheus de sua “seguidora” rsrsrs