“There is a crack in everything, that’s how the light gets in”.

Leonard Cohen

No mundo ocidental o perfeccionismo é um problema. A sociedade nos ensina que estamos fisicamente ou/e emocionalmente falhos e, em seguida, tenta nos vender produtos como soluções para essas chamadas imperfeições. Não é nenhuma surpresa que as filosofias orientais, como a estética japonesa kintsugi, soe tão refrescante em comparação com o nosso tratamento habitual aos objetos e humanos “danificados”.

Acredita-se que o kintsugi teve início no século XV quando um líder militar japonês quebrou sua caneca de chá favorita. Ele a enviou para o reparo e ficou insatisfeito com o resultado. Os pedaços quebrados da caneca foram presos com grampos.  Nem um pouco impressionado, pediu aos artesãos locais uma solução mais agradável. Então, eles desenvolveram um novo e belo método de conserto que literalmente significa “marcenaria de ouro”. Nascia o kintsugi, a arte de fixação de cerâmica quebrada com resina laca, polvilhado ou misturado com ouro em pó.

Kintsugi decorre de Wabi-Sabi, um princípio estético japonês que abraça as imperfeições que vêm com a impermanência. Em vez de algo a esconder, rachaduras de um objeto são deliberadamente destaque, reconhecendo pontos de orgulho ao longo de sua jornada. O objeto, tradicionalmente um vaso de cerâmica, é considerado mais bonito depois de ser remendado – às vezes as pessoas até mesmo quebram propositadamente suas cerâmicas apenas para remendá-las no estilo kintsugi.

Ernest Hemingway escreveu em A Farewell to Arms que “o mundo quebra a todos e, mais tarde, muitos são mais fortes nesses pontos quebrados”. Enquanto o kintsugi pode ser aplicado a todos os tipos de meios artísticos, a filosofia é igualmente pungente quando encarnada como um modo de vida. Lembra-nos de celebrar a nossa beleza autêntica e respeitar a nossa jornada pessoal abraçando nossas feridas, ao invés de encobrirmos nossas peças danificadas.

E o mundo está cheio de peças danificadas. São traumas, corações partidos, guerras, relacionamentos desfeitos, abusos, problemas de saúde, traições, sonhos que não saíram do papel ou músicos que deixaram suas bandas (conheci o termo ano passado com o disco de mesmo nome do Death Cab for Cutie, inspirado na saída de um dos membros da banda). Nenhum de nós escapa da dor de ser quebrado de uma ou outra forma nesta jornada da vida. Resta a você conseguir enxergar a beleza diante de suas cicatrizes.

28 anos, catarinense, escritor, empreendedor, growth hacker, guitarrista frustrado, marido da Laís. Eleito pelo LinkedIn como o terceiro brasileiro mais influente da rede em 2016.