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Nos últimos meses tenho pesquisado muito sobre produtividade. Já são mais de 20 textos sobre o tema e até um e-book eu escrevi. O curioso foi que, esses dias, enquanto jogava vídeo-game, me peguei pensando nos benefícios de não fazer nada. Sim, você não leu errado.

Tem vários caras por aí — e eu sou um deles — dando dicas de como usar seu tempo da melhor maneira possível e há uma sensação de que devemos estar sempre produzindo, mas, não fazer nada pode ser  a chave para a paz e a tranquilidade — para aquilo que procuramos para vida.

Desde pequeno eu sempre tentei melhorar minha vida e o meu ambiente. Sempre fui voraz por conhecimento. Eu era o tipo de criança que se divertia lendo o Almanaque Abril (ainda existe?). Passei horas e horas jogando Championship Manager (hoje o Football Manager) procurando as melhores estratégias para ser o melhor — ao invés de apenas me divertir.

Na faculdade, tinha a sensação de que a galera havia sido iludida pela sede por dinheiro, poder, prestígio, grandes casas e grandes carros. Estudar Relações Internacionais talvez tenha me dado algumas ferramentas mentais para entender melhor o mundo ao meu redor. E é claro que no final do dia eu só queria ser feliz.

Até então eu pensava que a resposta para os dilemas da vida estava em ser produtivo. Produzir, produzir, produzir. Eu via velhos amigos fazendo as mesmas coisas de sempre. Acomodados, pensava.

No entanto, me encontrei esgotado. Lendo um monte de filosofia e pensando sobre o propósito da minha vida tive alguns insights. Hoje vejo, por mais irônico que seja, que quanto mais eu aprender sobre produtividade, empreendedorismo ou literatura, mais confuso e insatisfeito com a minha vida eu ficarei. Louco isso, né?

Às vezes levo minha vida muito a sério e tenho trabalhado minha mente para relaxar e não fazer nada sem me sentir culpado depois. Sem ter o sentimento de que deveria ter aproveitado aquele tempo para produzir algo.

Isso também vale para a criatividade. Quando criança,  por exemplo, era o tédio quem me obrigava a ser criativo. Como eu geralmente ganhava brinquedos apenas em datas especiais, os desmontava e os reconstruía de maneiras diferentes — talvez por isso eu sempre fui apaixonado por LEGOs. Se você foi um menino nos anos 90, provavelmente retirou o motorzinho de algum carrinho para colocá-lo em outro brinquedo ou fez um paraquedas para o seu soldadinho verde com uma sacola plástica — saudades, Programa da Eliana!

Nesse ponto me preocupo com nossas crianças e seus gadgets que as mantem sempre distraídas e estimuladas. Como elas podem ser criativas sem uma boa dose de tédio e não fazer nada?

Eu sinto que a criatividade é como os feijões que plantávamos no algodão quando pequenos. Não podemos forçá-la a crescer mais rápido do que o natural. É claro que precisamos do trabalho duro — e aí entra a produtividade —, mas também precisamos “relaxar duro”, precisamos não fazer nada.

Não fazer nada não precisa ser necessariamente assistir algo no Netflix ou jogar vídeo-game. Você pode usar seu tempo para ler, escrever, fotografar, meditar ou caminhar — sem se sentir forçado quando você não quiser ou porque viu aquele guru da internet o fazendo em seu SnapChat.

Penso que todos queremos escapar de vidas miseráveis e frustadas, mas esse culto aos vendedores de sonhos pode estar nos prejudicando. Escritores estão frustrados com eles mesmos porque não estão sempre inspirados para escreverem. O mesmo serve para fotógrafos, insatisfeitos por não estarem sempre inspirados para tirarem fotografias. E por aí vai.

Eu, você, os escritores, os fotógrafos e todos esses caras talvez estejam insatisfeitos porque temos ouvido o tempo todo que devemos ser produtivos, que devemos estar sempre trabalhando, ou então somos um bando de inúteis. Desaprendemos a ficar parados e não fazer nada. É como se faltasse algo quando nos sentamos numa tarde de domingo e percebemos que não há nada marcado em nossa agenda para aquele horário.

Sei que alguns tipos de entretenimento como a TV nos tornam passivos, mas, se você tem prazer em assistir o BBB ou uma novela, foda-se o que os outros pensam. Não se sinta culpado. Se aquele momento lhe traz um mínimo de felicidade, aproveite. Não se martirize por não estar fazendo outra coisa.

No final das nossas vidas, o que vai contar é a qualidade, não a quantidade. Se pensarmos que somos artistas e nossa vida uma grande obra, o que importará lá na frente é o que fizemos como seres humanos. Não precisaremos ter criado centenas ou milhares de obras, a qualidade é que criará um legado.

Meu escritor favorito é Jack Kerouac. Tenho quatro livros dele na estante que ainda não li. Eles estão lá, empoeirando, enquanto leio livros técnicos para melhorar minha produtividade e ser um empreendedor mais eficiente. Não me entenda mal, eu realmente gosto disso, mas eu gosto mais do Jack, saca? Porém, me sinto culpado em ler essas quatro obras antes de absorver tudo o que eu conseguir sobre empreendedorismo.

Agora compare as obras de Jack Kerouac com os milhares de e-books desses gurus da internet — vai lá, aponte o dedo pra mim e me chame de hipócrita. Jack tem uma dúzia de livros que cruzaram gerações e estão vivos até hoje. Já esses e-books se perderão no limbo da internet em pouco tempo.

Se você leu algum dos livros de Jack, sabe que ele era um grande adepto do não fazer nada. Mesmo não sendo um exemplo de produtividade, sua criatividade emergia do ócio. Dizem que On The Road, sua obra mais famosa, foi escrita em apenas três dias — outros falam em três semanas. O ponto é que ele nunca parou de explorar. Alimentava sua curiosidade com pequenos prazeres ao invés de técnicas ou métodos.

Sinceramente, acho que há uma grande sabedoria em não fazer nada. Mas, quando não fizer nada, faça algo que signifique algo para você — e não para seu guru, mentor ou sei lá quem.

Escritor, educador e TEDx Speaker. Autor de "Nômade Digital", livro finalista do Prêmio Jabuti.
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