Durante a ditadura de Francisco Franco na Espanha, o FC Barcelona tornou-se um símbolo da identidade catalã. O Generalíssimo se foi há muito tempo, mas o clube não perdeu o seu significado para a região autônoma da Catalunha.

Depois que o Parlamento da Catalunha aprovou um projeto de lei para se separar da Espanha em 2017, os alarmes dispararam em Madrid. Mas o que o FC Barcelona, ​​uma das equipes mais emblemáticas do mundo, tem haver com tudo isso?

O FC Barcelona, uma das equipes de maior sucesso na década passada, é um símbolo da cultura catalã. O lema da equipe de “més que un club” reflete o nacionalismo catalão e os seus torcedores o usam como uma saída para o movimento de independência.

Há até mesmo gritos de “independência” durante cada jogo em casa quando o relógio chega a 17 minutos e 14 segundos, uma referência ao ano de 1714, quando a Espanha derrotou forças catalães e assumiu o território. Após a aprovação do projeto de lei, a província pretende tornar-se um estado independente o mais rapidamente possível.

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Foto: Matthias Hangst/Getty Images

Independência não é boa para os negócios

Em setembro do ano passado, a UEFA multou o FC Barcelona em £40 mil após torcedores – conhecidos como Estelades – ostentarem bandeiras e cantarem slogans pró-independência durante uma partida da Liga dos Campeões contra o Bayer Leverkusen. O clube ainda seria multado em julho deste ano por um caso semelhante durante a final da Liga em Berlim.

Mas as pesadas multas não impediram os torcedores de exibirem suas intenções. No início deste mês foram distribuídas 30 mil bandeiras do lado de fora do estádio Camp Nou antes do jogo contra o BATE Borisov pela Liga dos Campeões. Os defensores do movimento de independência tiveram uma pequena vitória após a UEFA decidir suspender as multas contra o clube até que o Tribunal de Arbitragem do Esporte (CAS) analise o caso e chegue a uma decisão.

A equipe optou por ficar neutra em assuntos políticos, mas algumas das suas principais figuras têm manifestado abertamente o apoio à causa da independência. Ex-jogador e ex-treinador do FC Barcelona, hoje no Bayern de Munique, Pep Guardiola declarou o seu total apoio à secessão da Espanha. Em um vídeo para o Junts pel Sí, uma coalizão independente catalã, Guardiola diz em catalão que “não há como voltar atrás” e a independência catalã é “inevitável”.

Segundo o Presidente da Liga Espanhola, Javier Tebas, e o Ministro dos Esportes do país, Miguel Cardenal, o FC Barcelona não seria capaz de participar da La Liga se a Catalunha se tornasse independente. Cardenal acrescentou que o nível e a presença do Barça no futebol europeu, certamente, diminuiria no caso de secessão catalã.

Poucos dias antes da eleição parlamentar catalã em setembro, Tebas tuítou: “Se a Espanha se divide, assim também faz La Liga. Vamos esperar que nós nunca cheguemos a tal absurdo.”

No entanto, várias ligas de todo o mundo são compostas de equipes de vários países diferentes. Na Europa, a Premier League inglesa permite que as equipes de Gales participem, como o Swansea, assim como a Ligue 1 da França tem o AS Monaco registrado entre os participantes.

Alguns relatórios indicam que a liga francesa estaria disposta a adotar o FC Barcelona. A sua localização geográfica próxima e equipes competitivas, tais como Paris Saint-Germain e Lyon, oferecem uma opção promissora para os Blaugranas. Até agora, esses relatórios são apenas especulações. Nenhum comentário oficial foi feito por qualquer liga ou pela equipe.

Embora não existam garantias de que a independência catalã significaria um fim absoluto à adesão do FC Barcelona a La Liga, ​​uma coisa é certa: a exclusão do Barça seria o fim do prestígio do campeonato.

Dependente da rivalidade

Talvez a equipe mais afetada pela independência catalã não seria necessariamente o FC Barcelona, ​​mas o seu rival mais feroz: Real Madrid.

Os gigantes espanhóis vivem entre si duelos intensos conhecidos como El Clásico, aguardadíssimos pelos entusiastas do futebol em todo o mundo. Os jogos também têm alguns dos maiores índices entre os eventos esportivos ao redor do globo que se traduzem em enormes lucros para ambas as equipes e sua liga.

De acordo com a Forbes, Real Madrid e FC Barcelona estão, respectivamente, no topo da lista dos clubes de futebol mais valiosos do mundo. Com a possível saída do Barça do campeonato espanhol, os clubes teriam a possibilidade de enfrentar-se apenas em competições europeias.

A criação de uma liga catalã, embora uma possibilidade, não seria a melhor das opções para o FC Barcelona. A liga catalã seria semelhante às de San Marino e Gibraltar, que consistem em equipes amadoras com apenas um pequeno número de jogadores profissionais, muitos com um segundo emprego fora do esporte. Vocês já imaginaram o trio Messi, Suárez e Neymar jogando contra um time composto por garçons, motoristas de ônibus e vendedores?

A independência catalã seria um hasta la vista para o dérbi e, como Tebas justificou, uma grande perda financeira para FC Barcelona, ​​Real Madrid e La Liga. E, infelizmente, neste caso, a perda maior seria dos fãs do jogo bonito que ficariam órfãos do El Clásico.

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27 anos, catarinense, escritor, empreendedor, growth hacker, guitarrista frustrado, marido da Laís. Eleito pelo LinkedIn como o terceiro brasileiro mais influente da rede em 2016. Sócio do Crush Design — uma das 100 startups mais inovadoras do estado de Santa Catarina.

  • Essa é uma questão muito complicada. Vivo na Espanha há dez anos e acompanho de perto essa questão. Na verdade a diretoria do Club é bastante parcial nesse sentido, com uma atitute bastante pró-separação. A grande maioria dos atletas “catalanes” defendem a separação, inclusive em muitos jogos do Barça ou no Camp Nou, enquanto se escuta o hino Espanhol, todos os pró-separação gritam e apitam para que não se escute o Hino. É uma situação lamentável.

    • Obrigado pela participação, Claudine! Bacana ler o relato de alguém que acompanha de perto a situação.