Eu terminei de ler “Os Subterrâneos” com uma sensação inexplicável, como se o próprio Jack Kerouac me abraçasse forte, me obrigasse a correr uma maratona e me golpeasse com um chute no estômago. De uma página para outra, fui da compaixão por sua miséria irrespondível e destrutível até a impiedade ao perceber que ele não passava de um filho da puta egomaníaco do caralho. A história de Leo Percepied e Mardou Fox escoa para fora como se a lama de Mariana invadisse a North Beach de São Francisco.

Como todo livro de Kerouac, você sente a necessidade de usar uma máscara de oxigênio a cada parágrafo de sua autodenominada prosa espontânea. A obra narra a história de um homem caucasiano que se apaixona por uma afro-americana dez anos mais jovem em meio a vida noturna escaldante de São Francisco no final dos anos 50. No primeiro encontro com Leo, o alter ego de Jack, ele está abatido e contempla sua carreira de escritor enquanto tem pensamentos suicidas. Suas ambições e seu comportamento autodestrutivo levam seu caso amoroso ao óbvio colapso. A partir de então, temos uma cornucópia de reflexões filosóficas e explosões de amor, raiva e desejo.

Se lançado em 2015, provavelmente “Os Subterrâneos” seria chamado de racista e sexista devido ao comportamento de Leo em fetichizar a raça e a aparência de uma mulher negra. Porém, por ter sido escrito em um período de tempo diferente, – embora não sejam tantas décadas de distância – teve uma abordagem completamente diferente quanto aos pontos de vista de sexo, gênero e raça.

Podemos agora discordar fortemente da visão machista de Leo/Jack de enxergar as mulheres como objetos sexuais feitos para agradar os homens – uma norma social comum no seio da geração beat hedonista –, mas ao nos concentrarmos em sua arte literária temos um retrato cru e honesto da forma como ele via as coisas – em certos pontos lembrando o olhar ingênuo de uma criança.

O romance foi escrito num espaço de três dias e três noites. Seu método apressado e rabiscado pode dificultar a leitura de quem não o conhece ou está acostumado com o uso correto de vírgulas. Sua prosa espontânea consegue captar a urgência inexplicável e demanda a atenção do leitor para o que ressoa atrás de cada sílaba. Além disso, existe o fato de que em três dias não há tempo hábil para se editar um livro. Cada palavra surgida em sua mente foi colocada no papel por sua voz narrativa durante seu rompante inspiracional. É, de fato, um retrato cru e honesto.

Em um mundo ideal, Kerouac não teria focado tanto nas qualidades superficiais de Mardou Fox e nas frustrações de seus amigos igualmente bêbados e deprimidos – os subterrâneos. Mas, o mundo em que vivemos está longe de ser ideal – e definitivamente não o era nos anos 50. Esta não é apenas uma história de amor, por trás da trama com becos escuros e cômodos esfumaçados, residem explorações constantes na dependência e luta dos conflitos internos de artistas, visionários e aventureiros vivendo à margem da sociedade.

Os Subterrâneos / Jack Kerouac; Tradução de Paulo Henriques Britto. - Porto Alegre, RS: L&PM, 2013
Os Subterrâneos / Jack Kerouac; Tradução de Paulo Henriques Britto. – Porto Alegre, RS: L&PM, 2013

Na edição da L&PM Pocket são apenas 136 páginas. É um desses livros de bolso que você devora num sábado chuvoso. Concentre-se em seu estilo jazzístico, nos deleites e desafios daquela geração de hipsters e mergulhe em sua forma poética de descrever o mundano intrínseco. Ah, e não esqueça de me agradecer mais tarde pela indicação.

28 anos, catarinense, escritor, empreendedor e freelancer em marketing digital. Eleito pelo LinkedIn como o terceiro brasileiro mais influente da rede em 2016. Escreve também no HuffPost e no Transformação Digital.