Tiros. Bombas. Gritos. “Faça alguma coisa! Faça alguma coisa pela revolução”, berra um homem em meio ao caos. Os manifestantes com seus capacetes e viseiras improvisadas estão unidos, orientando uns aos outros quanto aos franco-atiradores escondidos em meio à muvuca. Um jovem se vira para a câmera para descrever como ele simplesmente arrastou um corpo pela rua. Outro liga para sua mãe apenas para dizer que a ama.

A cena poderosa foi registrada nos últimos dias dos protestos conhecidos como Maidan ou Revolução da Dignidade em Kiev, que depôs o então presidente ucraniano Viktor Yanukovych. Esse é o ponto de partida para “Winter on Fire: Ukraine’s Fight for Freedom”, documentário original do Netflix lançado em outubro deste ano que cataloga os 93 dias do movimento, desde o início em novembro de 2013 até seu auge em fevereiro de 2014.

“Eu queria mostrar a história por trás das manchetes”, disse Evgeny Afineevsky, nascido na antiga União Soviética e diretor de “Winter on Fire”. O documentário não é uma história exaustiva sobre a crise na Ucrânia, mas sim um relato orgânico dos protestos e das pessoas que lutaram – e em alguns casos morreram – nas ruas. Ao invés de focalizar nas manobras políticas radicais em curso na Ucrânia ou no jogo de empurra-empurra entre Yanukovych, União Europeia e Rússia, Afineevsky decidiu contar a história daqueles que vieram para as ruas – e fez isso com imagens visualmente deslumbrantes e emocionantes que levam o espectador para dentro da anatomia dos protestos.

Quando Afineevsky e sua equipe de cineastas aterrissaram na capital ucraniana no outono de 2013 e seguiram para a Maidan Nezalezhnosti de Kiev (ucraniano para Praça da Independência), Yanukovych tinha acabado de recuar quanto ao acordo de associação com a União Europeia e os protestos resumiam-se a algumas centenas de estudantes acampados.

“No início, era mais um festival do que um protesto. As pessoas só queriam ser ouvidas”, disse Afineevsky. “Naqueles primeiros dias, ninguém estava esperando ativistas serem mortos ou sequestrados no meio da noite. Isso surpreendeu muita gente”.

O que se seguiu foram as cenas icônicas que tomaram conta do mundo e redesenharam as linhas geopolíticas na Europa. Em 11 de dezembro de 2013, a polícia ucraniana conhecida como Berkut tentou “limpar” as pessoas da praça. A equipe de Afineevsky captou vividamente esse confronto, com trincheiras repletas de jovens manifestantes sendo golpeados com bastões ou atingidos por balas de borracha – e em determinados momentos por balas de verdade. Se você reclama da Polícia Militar do Brasil, deveria conhecer a Berkut.

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Foto: Arturas Morozovas / Netflix Inc.

“Eu vou sempre lembrar daquele momento, todos estavam unidos. Foi quando eu soube que a história estava acontecendo”, disse Afineevsky.

No seu auge, “Winter on Fire” mostra a evolução da revolução, de protesto estudantil à movimento de massas, enquanto transmite as esperanças e os sonhos daqueles que acamparam por meses no frio congelante.

“O filme que eu fiz foi apenas um capítulo da história da Ucrânia. A história ainda está se desenvolvendo”, disse Afineevsky. “Mas deve ser um lembrete para todos os governos, mesmo o atual, em Kiev, que isto é o que acontece quando você ignora o seu povo”.

Como brasileiro, é impossível não recordar das manifestações de junho de 2013 que não deram em nada e mais foram um festival do que um protesto propriamente dito – ou mesmo dos recentes pedidos de impeachment contra a presidente Dilma Rousseff que pipocam todos os dias no Facebook. Não sabemos protestar? Somos acomodados? Nos acostumamos com a impunidade? Não sei. Se você tiver a resposta, por favor a deixe nos comentários. E, claro, assista “Winter on Fire”.

28 anos, catarinense, escritor, empreendedor, growth hacker, guitarrista frustrado, marido da Laís. Eleito pelo LinkedIn como o terceiro brasileiro mais influente da rede em 2016.

  • Muitoo bom o texto! Eu como historiador tenho certeza que consigo extrair muitas coisas do documentário para apresentar em aula.

    E gostei das criticas feitas a questão das manifestações de nosso país. Em relação a 2013 acredito que foi bem sóbrio, porém em relação a impeachment é fácil de entender. Muitos da nossa sociedade (incluindo até mesmo eu) não quer o impeachment 🙂

    • Obrigado pela participação! Ah, também me incluo nessa parcela da sociedade que não quer o impeachment. 🙂

      • Bruna Gomes Carvalho

        Seus textos são claros e viciantes , uma pena estarem baseados em contextos sombrios e vergonhosos desta espécie dotada de maldade . Sobre o impeachment gostaria de saber de vocês se consideram golpe ? Também sou contra o impeachment como camuflagem de interesses e não de humanismo como deveria o ser, mas o lado interessante e importante é que manifestações da população significou algum tipo de mudanças, resta saber para quem …