Tenho um certo prazer em descobrir novas bandas. Em 2013, quando Matt Helders, baterista dos Arctic Monkeys, usou uma camiseta escrito Royal Blood no lendário show da banda no Festival de Glastonbury daquele ano, eu e milhares de curiosos corremos para o Google.

Naquela época, o furioso duo inglês de garage/blues/stoner rock formado na cidade de Brighton em 2012 por Bem Thatcher e Mike Kerr, não havia nem lançado seu primeiro e único álbum, que veio ao mundo apenas em agosto de 2014. E que álbum.

Muita gente – incluindo eu – esperava mais uma dupla bebendo na fonte dos Black Keys ou dos White Stripes. Demos com a cara no muro. Com uma baterista nervoso e um baixista que usa pedais e amplificadores de guitarra – fazendo com que seu instrumento soe como uma –, o Royal Blood tem uma sonoridade única. Ganharam fãs notáveis como Jimmy Page e Dave Grohl e viraram sensação em diversos festivais Europa afora.

Até a apresentação do último sábado (19) no Rock in Rio, Kerr e Thatcher eram ilustres desconhecidos em terras tupiniquins. Isso se provou durante a transmissão do festival pelo Multishow. Basta uma rápida busca por tweets com #RoyalBloodNoMultishow. “Mal conheço e já considero pakas” é meu favorito.

"Royal Blood", 2014
“Royal Blood”, 2014

E aí chegamos ao título do post. Toda essa idolatria repentina pela banda do cara que faz som de guitarra com um baixo gerou, no mesmo Twitter, o eterno burburinho adolescente do poser x fã. A síndrome do underground.

Quando adolescente também tive essa síndrome. Ela começou a se manifestar em meados de 2004, quando “I Miss You” do blink-182 estourou na Malhação e pouco tempo depois o “American Idiot” do Green Day foi lançado. Um roqueiro mirim não consegue aceitar que alguém que escute música pop, sertaneja e/ou funk se diga fã de sua banda favorita ao descobri-la já no mainstream.

E aqui temos um paradoxo. Tirando alguns casos raros, músicos montam bandas visando fazer sucesso e viver disso. Os caras do Royal Blood estavam extasiados diante das 85 mil pessoas presentes no Rock in Rio. Eu, que já conhecia a banda, fiquei extremamente feliz em ver a aceitação do público com o som dos caras. Por que diabos guardar a sete chaves algo tão bom?

Ok, um adolescente – salvo exceções, lógico – não tem maturidade suficiente para perceber isso. O problema é quando um adulto pensa desse jeito. Nesse mesmo sábado, metaleiros fãs do Metallica zombavam de quem se dizia fã e conhecia apenas “Enter Sandman” ou “Nothing Else Matters”.

Na boa, não gastem energia com isso. Sua banda preferida não vai mudar a sonoridade porque uma menina que escuta Rihanna ouviu uma música na Malhação e a adorou. Não percam tempo se incomodando pelo gosto de alguém por algo que nem é seu. Pense o seguinte: quanto mais sua banda estrangeira ficar famosa por aqui, mais chances de você assisti-la de perto. Pesquise sobre a lei da oferta e da procura e, quando estiver em um show, agradeça o poser ao seu lado.

28 anos, catarinense, escritor, empreendedor, growth hacker, guitarrista frustrado, marido da Laís. Eleito pelo LinkedIn como o terceiro brasileiro mais influente da rede em 2016.