No início da semana o Facebook lembrou-me que há 1 ano atrás eu e minha companheira de vida e de viagens desembarcávamos na terra de Pablo Escobar. Não foi uma viagem planejada. Na verdade, fomos obrigados. Tínhamos uma longa conexão de 10 horas no país antes de aterrissarmos nos Estados Unidos da América. Aproveitamos o tempo ocioso para explorarmos Bogotá.

Nossa aventura começa no Aeroporto Internacional El Dorado. Depois de enfrentarmos a longa fila da imigração, descobrimos que era necessário preenchermos um confuso formulário de aduana agropecuária. Ou seja, duas filas. Após gastarmos nosso espanhol com o agente de imigração, nossos passaportes serem carimbados e comprarmos o suficiente de pesos colombianos para uma tarde, deixamos nossa bagagem em um guarda-volumes e saímos à procura de um táxi.

Nosso taxista não falava inglês, tampouco português. Nossos diálogos deram-se através de um castellano mequetrefe que por vezes tornou-se um portunhol descarado. Queríamos conhecer os principais pontos turísticos da cidade. O caminho até o centro histórico lembrava as marginais de São Paulo com seus engarrafamentos e prédios pichados.

Juan (não lembro seu nome verdadeiro), entre uma fala ou outra sobre futebol, nos alertava sobre os perigos de Bogotá. “Evitem andar em tal rua”. “Evitem andar com câmera à mostra”. “Coloquem seu dinheiro nos bolsos da frente”. Essas frases lembram algo? Somos brasileiros, estamos sempre atentos. Tais conselhos apenas alimentaram o conceito prévio que tínhamos do país conhecido por seus cartéis de droga e seus movimentos guerrilheiros.

Descemos perto da praça que leva o nome do libertador Simón Bolívar. Em meio ao Congresso da República, a histórica Catedral Primaz, ambulantes, pombos e lhamas, está o prédio do Palácio da Justiça, aquele mesmo que aparece no 4º episódio da 1ª temporada da série Narcos, do Netflix, que tem o brasileiro Wagner Moura no papel de Pablo Escobar. Como visto na série, o narcotraficante financiou um ataque terrorista realizado pelo grupo M-19 (Movimento 19 de abril) em 1985 no local. Na ação, que vitimou 98 pessoas, um vasto arquivo com provas que incriminariam El Padriño foi destruído.

Praça Simón Bolívar, Bogotá, Colombia.
Praça Simón Bolívar, Bogotá, Colômbia.

O passeio continuou pelas estreitas e coloridas ruas de La Candelaria. Seguimos o conselho do nosso amigo Juan e evitamos becos suspeitos. Assim como em qualquer cidade brasileira era comum sermos parados por pedintes e ambulantes. Ainda tínhamos bastante tempo livre, mas depois de provarmos o famoso café colombiano e proferirmos diversos “no, gracías“, resolvemos que era hora de voltar para o aeroporto.

Demoramos cerca de meia hora até acharmos um taxista disponível. Para o nosso azar – ou não, visto que agora temos uma boa história – entramos no que provavelmente deveria ser o táxi mais antigo de Bogotá. Peças do interior faltando, um velho toca-fitas em pleno funcionamento e um motorista suspeito. Negociamos um valor que nunca saberei se foi justo e Emilio (nome fictício, claro) pilotou sua viatura com a sutileza de um bugueiro das dunas de Natal até nosso destino final.

Talvez nossa expectativa com a viagem para Nova York tenha tornado a experiência em Bogotá desinteressante. Essa não era a América que procurávamos. Estávamos indo em busca do verdadeiro sonho americano – aquele vendido no cinema. Não fomos capazes de enxergar a cidade sem os estereótipos criados por Hollywood ou por Juan. Essa visão não nos permitiu perceber que compartilhamos da mesma realidade de nossos vizinhos, seja para o bem ou para o mal.

Uma pena termos conhecido a cidade em tais circunstâncias. Afinal, um lugar com 58 museus, 62 galerias de arte e mais de 150 monumentos nacionais merece ser visitado com calma e com a cabeça livre de preconceitos e expectativas.

28 anos, catarinense, escritor, empreendedor, growth hacker, guitarrista frustrado, marido da Laís. Eleito pelo LinkedIn como o terceiro brasileiro mais influente da rede em 2016.