O filósofo alemão Walter Benjamin, com base na poesia do francês Charles Baudelaire, tornou o termo flâneur conhecido. A palavra francesa pode ser traduzida como “vadio”, “preguiçoso” ou “vagabundo”, mas a definição de Baudelaire vai além: “é o sujeito que anda pela cidade a fim de experimentá-la”. O flâneur se abriga no ventre do caos urbano, se alimenta da transitoriedade, observa o que passa despercebido pelos transeuntes. Aquele que, segundo Benjamin, “vê a cidade sem disfarces”.

Se trouxermos essa imagem para o universo da ex-estudante de filosofia Elizabeth Grant, conhecida como Lana Del Rey – nome inspirado pela atriz Lana Turner e pelo icônico carro Ford Del Rey –, percebemos que ela flana pelo mundo criado pela própria. Um ambiente repleto de melancolia, nostalgia e uma dose de lisergia que molda sua obra. Alguns artistas vivem sua arte, já Lana vive em sua arte, dando vida aos personagens de suas composições, como disse o ator James Franco em um ensaio sobre a cantora.

Os arranjos de suas músicas parecem ter saído de filmes em preto e branco dos anos 50, suas letras possuem narrativas cinematográficas. Há uma aura lo-fi em torno dela. Uma rainha que usa uma coroa de flores e canta sobre romances fracassados, drogas e até videogames.

Do cênico Born To Die (2012) ao setentista Ultraviolence (2014), Grant viaja de carona com Del Rey como se tivesse usado alucinógenos na companhia de Timothy Leary. Ela flana sem disfarces no universo que representa seu templo, o verdadeiro lugar sagrado do flânerie. Mas, diferente da Paris de Baudelaire, nenhum vagabundo que perambula sem compromisso consegue vê-la sem máscara, seja na Costa Leste ou Oeste.

Observador, flâneur, filósofo, chamem-no como quiserem, mas, para caracterizar esse artista, certamente seremos levados a agraciá-lo com um epíteto que não poderíamos aplicar ao pintor das coisas eternas, ou pelo menos mais duradouras, coisas heróicas ou religiosas. Às vezes ele é um poeta; mais frequentemente aproxima-se do romancista ou do moralista; é o pintor do circunstancial e de tudo o que este sugere de eterno. (BAUDELAIRE, Charles. Sobre modernidade: o pintor da vida moderna. 1997).

Lana torna-se a típica flâneur ao andar a esmo e captar recortes e colagens de outrora. Através de sua música ela olha o mundo e procura explicações para seus anseios existenciais, preenchidos seja por aplicações de botox em seus lábios ou pelo audio tune em suas músicas.

Para quem observa seu mundo de fora, a impressão é de uma artista cuidadosamente criada pela sua gravadora e esculpida pelo dinheiro de um pai milionário. Uma cantora que é péssima ao vivo. Uma personagem criada por Elizabeth Grant para suprir algo – alguns dirão sua falta de talento natural.

Lana Del Rey polaroid bw
Lana Del Rey por Impossible Berlin (blog.the-impossible-project.com).

Franco disse que Grant/Del Rey “é alguém que vem se decepcionando com a vida, por isso ela teve que criar seu próprio mundo” e assim “passa muito tempo sozinha”, afinal, “todo mundo quer entrar em seu mundo”. Ora, apenas deixem ela lá, experimentando as profundezas de seu universo particular de referências, fumando um cigarro com James Dean, pegando uma carona com Dean Moriarty ou assistindo o Jefferson Airplane no Woodstock.

O homem do devaneio banha-se na felicidade de sonhar no mundo (…) A correlação do sonhador ao seu mundo é uma correlação forte. É esse mundo vivido pelo devaneio que remete mais diretamente ao ser do homem solitário. O homem solitário possui diretamente os mundos por ele sonhados. Para duvidar dos mundos do devaneio, seria preciso não sonhar, seria preciso sair do devaneio. O homem do devaneio e o mundo do seu devaneio estão muito próximos, tocam-se, compenetram-se. Estão no mesmo plano do ser; se for necessário ligar o ser do homem ao ser do mundo, o cogito do devaneio há de enunciar-se assim: eu sonho o mundo; logo, o mundo existe tal como eu o sonho. (BACHELARD, Gaston. A poética do devaneio. 2009).

28 anos, catarinense, escritor, empreendedor, growth hacker, guitarrista frustrado, marido da Laís. Eleito pelo LinkedIn como o terceiro brasileiro mais influente da rede em 2016.

  • Muito bom texto. Uma ótima descrição de Lana e suas viagens.