A vitrola toca o magistral “Kind of Blue”, disco do gênio Miles Davis lançado em 1959, enquanto a lua cheia ilumina a sacada do meu apartamento. Falta apenas uma dose de whisky para acompanhar – na verdade tomei umas Bavárias, cerveja que sofre um certo preconceito por ser a mais barata entre as comuns.

Esse cenário – exceto pelas Bavárias – me faz parecer um alguém com gosto refinado, um entendedor das artes. Do jazz, conheço apenas os clássicos. Davis, Coltrane, Evans, Parker e etc, graças ao livro “1001 Discos Para Ouvir Antes de Morrer”, presente de minha noiva – na época namorada – em algum Natal que ficou no passado.

Aparências. Uma pena eu não ter um “pau de selfie” para registrar esse momento e publicar a foto na minha conta – que também não tenho – no Instagram. Aliás, eu deveria ter feito isso quando estive no MoMA (Museum of Modern-Art) em Nova York. Uma foto por lá renderia várias curtidas, além do status de alguém culto, que entende e aprecia a arte.

A verdade é que quando estive no MoMA me senti um completo ignorante. Não vi nada demais nas obras de van Gogh, Picasso e Cézanne – e me sinto mal por isso. O último, inclusive, só sei da existência por causa de uma novela da Rede Globo.

Achei graça da feiura de Frida Kahlo e tirei umas fotos das obras de Andy Warhol, aquele da banana do Velvet Underground. Mas, quando entrei em uma sala e vi três quadros em branco, lado a lado, fui obrigado a me perguntar: “Isso é arte? Eu fazia melhor na 4ª série”.

Campbell's Soup Cans, Andy Warhol, 1962.
Campbell’s Soup Cans, Andy Warhol, 1962.

Talvez me falte sensibilidade. Talvez eu tenha nascido em um país que não valorize a arte e tenha sido corrompido. Talvez eu esteja bêbado. Talvez. A única certeza é que saí de um dos museus mais famosos do mundo com a sensação de ter jogado dinheiro fora. #ignorante

27 anos, catarinense, escritor, empreendedor, growth hacker, guitarrista frustrado, marido da Laís. Eleito pelo LinkedIn como o terceiro brasileiro mais influente da rede em 2016. Sócio do Crush Design — uma das 100 startups mais inovadoras do estado de Santa Catarina.

  • Belo texto. Não me parece ignorância. Existem peças de arte, ou mesmo inteiros períodos que não despertam a sensibilidade numa pessoa. Isso não é sinonimo de ignorância. Depois há peças que só passamos a gostar com o tempo, depois de compreender os seus contextos, e sobretudo depois de vivermos determinadas coisas. É como os livros, alguns só são compreendidos em determinadas alturas da vida, depois de passarmos por algumas experiências.

  • Cada um sente, pensa e age diferente. ‘Hang loose’.

  • I know exactly how you feel. I have often ask the same in museums–“Is this art?” 🙂