Entre uma fatia de pizza e outra, entre o “aceito” e o “não, obrigado” para o garçom do rodízio, observo a mesa composta por adolescentes a minha frente. Devem ter na faixa de 15 anos. Margem de erro de 1 pra cima e 1 pra baixo. O que entrega a pouca idade dos presentes é a quantidade de garrafas de refrigerante. Enquanto eu tomo uma cerveja, nada de álcool entre a rapaziada.

As meninas, com suas maquiagens pesadas e seus shorts curtos — em pleno inverno —, me levam há 10 anos atrás, quando eu tinha a idade deles. Naquela época — e você pode me chamar de nostálgico, melancólico ou até mesmo atrasado — “nossas” meninas eram de fato meninas.

A TV da pizzaria exibe um clipe da Katy Perry. Algumas meninas prestam atenção, outras ajeitam suas franjas com a ajuda das telas dos seus iPhones, outras ajeitam seus óculos de armação idêntica às das estrelas da TV com a ajuda dos seus iPhones, outras tiram selfies com seus iPhones.

Quando um grupo delas deixa a mesa em direção ao banheiro — esse hábito feminino parece brotar desde cedo —, os jovens garotos, com espinhas na cara — que as tentam esconder com seus cabelos desgrenhados da moda — suas calças slim, suas camisetas largas e compridas e suas pulseiras hippies, trocam olhares entre si. Alguma delas deve ser a musa dos rapazes. Se for como 10 anos atrás, ela provavelmente deve ter olhos apenas para os meninos mais velhos.

— Aceita essa de picanha com mostarda?

— Não, obrigado.

Estou cheio. A noite chega ao fim. Encontro-os no hall de saída. As meninas tiram fotos em frente ao espelho, que estarão logo mais no Instagram com a legenda “#NaNight #Adoro #EhToiss”. Os meninos ligam para seus pais virem buscá-los. Quando encostarem suas cabeças em seus travesseiros imaginarão o beijo que nunca darão em suas musas adolescentes.

O tempo poder ter passado e as ferramentas terem mudado, mas a ordem natural das coisas parece estar em plena harmonia.

28 anos, catarinense, escritor, empreendedor e freelancer em marketing digital. Eleito pelo LinkedIn como o terceiro brasileiro mais influente da rede em 2016. Escreve também no HuffPost e no Transformação Digital.