O texto de hoje foi escrito pela fotógrafa e namorada deste que lhes escreve, Laís Schulz. Este relato engrossa a campanha Chega de Fiu-Fiu do site Think Olga.

Por Laís Schulz

Hoje cedo li um texto no Glück que me fez pensar durante todo o dia nele e em nos nossos costumes, tanto é que agora são 22:50 e estou escrevendo sobre o assunto. Li este post em que a Karin Hueck fala em “como ter um corpo perfeito para o verão” sem ter um corpo perfeito de acordo com nossos ideais de beleza. Lá pelo meio do artigo, ela começa a divagar sobre a relação que nós brasileiros possuímos com o nosso corpo, e sobre como essa relação é contraditória. Logo depois cita uma pesquisa que elaborou em prol da campanha “Chega de Fiu-Fiu” e, depois de terminar a leitura do primeiro post, fui lá conferir o que era essa tal campanha.

Apesar de já imaginar o resultado, os fatos expostos em ambos os textos me deixaram horrorizada, porque mostram algo que está tão impregnado na nossa cultura, na nossa vida, no nosso dia a dia, que não estranhamos mais. A Karin fala que na Alemanha (onde ela vive atualmente), viu gente pelada num parque e ninguém estava dando a mínima pra isso, coisa que aqui seria inconcebível. Inconcebível não porque não temos liberdade, afinal as mulheres sambam peladas nas avenidas durante o carnaval, mas porque com certeza, quem quer que fosse, seria assediado.

A pesquisa realizada para o projeto “Chega de Fiu-Fiu” indicou que, das quase 8.000 mulheres entrevistadas, 99,6% já receberam cantadas, das quais 98% as receberam no meio da rua (joinha para os homens que fazem isso). Além disso, a pesquisa pergunta, entre outras coisas, se já deixou de sair, botar alguma roupa especial para sair e evitar o assédio, quais tipos de “cantadas já recebeu” e até para contar alguma experiência própria.

A cada resposta e comentário lido, eu me identificava mais e mais com aquelas mulheres. E a cada comentário lido, eu ficava mais e mais encafifada com o assunto, e tinha mais certeza de que vivemos em um país que pode ser muito repugnante. Além de todas as barbáries apresentadas, tinha cara tentando defender que chamar a mulher de “gostosa” no meio da rua é normal, é legal e é ignorância nossa não reconhecer esse gesto maravilhoso (verdade verdadeira, acredite se quiser). MAS NÃO É NORMAL.

Não sou nenhuma especialista, mas infelizmente, ao que me parece, o problema é cultural. Desde sempre os meninos são incentivados pelos pais a mandar beijinho pras “gatinhas”, como eles chamam. Acham o máximo quando o menino de 3 anos diz que tem namorada na creche. Nas novelas sempre tem o personagem malandrão, que chama a mulher de gostosa na rua, que fica olhando com cara de tarado pra bunda de outra personagem, o homem que beija a mulher a força, mas no final ela se apaixona (love story feelings). E mais: uma das músicas brasileiras de maior sucesso nos últimos anos (aqui e no exterior) narra exatamente essa situação degradante que nós, mulheres, vivemos no dia a dia, e que se tornou o hit dos garanhões da rua (eu ouvi dos pedreiros na obra da frente da minha casa, na época). “Sábado na balada a galera começou a dançar, e passou a menina mais linda, tomei coragem e comecei a falar: Nossa, nossa, assim você me mata, ai se eu te pego, ai se eu te pego”. Se uma criatura vivente fala isso para mim, minha única vontade é dar um murro na cara. Mas todo mundo dançava ao som dessa linda canção como se fosse o máximo mesmo. Aposto que um cara cantando e dançando essa música na balada e olhando pra uma mulher fazia sucesso, ainda.

A partir daí refleti sobre as vezes em que me senti mal, invadida e que deixei de fazer algo porque tinha medo de ser assediada. Não me acho linda, nem acho que tenha um corpo maravilhoso, mas sei que pra receber uma cantada na rua só precisa de uma coisa: ser mulher. Buzinadas, cantadas em frente a obras, buzinadas, olhares indiscretos na frente de um bar, entre outros episódios bizarros. Quando ia para a academia de manhã, sozinha, me sentia mal em ir com aquelas roupas coladas de lycra, então vestia sempre uma camiseta mais larguinha e ia o mais baranga possível. Hoje prefiro ir durante a noite com meus pais, e se eles não vão, prefiro não ir. Impossível se sentir confortável em meio a tantos homens sozinha. Morria de medo de sair sozinha à noite. Quando voltava da faculdade e atravessava uma ponte estreita e mal iluminada (para pedestres) da minha cidade, morria de medo e de vez enquando passava um homem sussurrando alguma coisa nojenta ao nosso lado. Quando ia trabalhar de ônibus, o que eu mais detestava era ter que caminhar até o ponto, não por preguiça, mas porque eu sabia que no meio do caminho sempre ia aparecer um babaca para fazer alguma coisa. Andava com meu iPod no volume máximo para evitar ouvir qualquer coisa. Quando comprei meu carro, o maior alívio não foi escapar de andar na chuva até o ponto de ônibus nos dias frios de inverno, foi simplesmente não precisar ouvir mais cantadas! É por isso que odeio ir até os lugares a pé e sozinha. Às vezes o dia amanhece tão lindo que sinto vontade de ir para o trabalho a pé, mas me custo porque o caminho é longo, o que dá mais oportunidade para um babaca aparecer no meu caminho. Às vezes queria caminhar na beira-rio num fim de tarde de verão, mas tenho medo de ser arrastada para o meio do mato e ser estuprada (já aconteceu com uma pessoa aqui). E não para por aí. Não vou falar de tudo, mas já é muito.

O pior de tudo foi num dia em que eu voltava do trabalho e passei por um homem mais velho de bicicleta. Ele seguia no mesmo sentido que eu e uma senhora que andava logo atrás de mim na rua. O homem começou a falar nojeiras que eu nem lembro direito, mas continuou andando de bicicleta. Mais a frente, ele fez a volta e veio na direção contrária, passando do nosso lado. Quando o vi voltando, baixei a cabeça e continuei caminhando. Depois que ele passou, a mulher atrás de mim começou a gritar horrorizada, xingando e mandando-o para os piores lugares do mundo. Veio correndo em minha direção e perguntou:

Viu?

Não! O que? respondi.

Ele abriu a calça e…  qualquer um sabe o que aconteceu depois.

Pois é. Isso é pervertido e, apesar de não ser tão extremo, as palavras tem quase o mesmo efeito. Mas há homens que pensam que um “fiu-fiu”, um “linda”, um “gostosa” no meio da rua não tem problema. Mas tem. A cada um desses “elogios” nos sentimos invadidas, como se estivéssemos erradas, mostrando demais, arrumadas demais, ou pelo menos nos questionando “que outro diabo de coisa podemos estar fazendo errado”. Um “elogio” desses não nos faz sentir lindas, amadas e adoradas, nos faz sentir mal, nos faz sentir sujas. Um “linda” na rua, e um “linda” do namorado, marido, são extremos opostos.

É triste, é frustrante. E a culpa é nossa em ser mulher, menina, em usar shorts no verão pra não passar calor, em sair na rua para caminhar com roupas para prática de esportes, em entrar no metrô lotado e ser obrigada a encostar em alguém porque não tem espaço vazio, ou em sair de casa?

 (Acredito que eu tenha me estendido demais, afinal, passei o dia inteiro pensando nisso tudo. Mas acho que a reflexão é válida para quem tiver a paciência de ler).

28 anos, catarinense, escritor, empreendedor, growth hacker, guitarrista frustrado, marido da Laís. Eleito pelo LinkedIn como o terceiro brasileiro mais influente da rede em 2016.