Cheguei na Alemanha esperando encontrar alemães carrancudos e frios. De frio, só encontrei o clima. O povo é amigável e solícito. Eu havia, inconscientemente e influenciado pela opinião generalizada de compatriotas, estereotipado uma nação sem conhecê-la. Fiz o mesmo na República Tcheca. Esperava encontrar comunistas e bêbados. Os segundos, de fato, encontrei. Também encontrei asiáticos fotografando tudo ao ser redor, do mesmo jeito em que são retratados na maioria das vezes. Hoje cedo li que a Avril Lavigne foi acusada de racismo por estereotipar os mesmos japoneses em seu novo videoclipe. A mesma Avril Lavigne que no início de sua carreira foi estereotipada de “skater girl rebelde” e hoje leva o rótulo de “cantora pop vadia vendida”.

Estereótipos. Rótulos. Bullying. Racismo. Preconceito. O termo varia de acordo com o grau de julgamento. Julgamos o tempo todo. Somos julgados o tempo todo. Se temos um bom emprego, somos vencedores. Se somos apenas mais um no meio da multidão, somos perdedores. Mas, vencedores e perdedores do quê e de quê? Existe um campeonato mundial de seres humanos? Se existe, me desclassifiquem por W.O., não quero participar disso.

Na Áustria percebi que, embora pensasse o contrário, eu também fazia parte da sociedade preconceituosa e julgadora da qual vivemos. Na capital da música clássica, imaginei encontrar senhores distintos bebendo vinhos da safra de 1945 em restaurantes caríssimos. Apesar do exagero, de fato este estereótipo se faz presente nas ruas de Viena. Porém, minha primeira impressão da cidade foi completamente diferente, um choque cultural.

Ficamos hospedados em um bairro afastado do caro centro de Viena, por questões financeiras. Estávamos com fome e deixamos nosso barato — porém belo e equipado — apartamento em busca de algum mercadinho, novamente visando economizar uns trocados. No caminho, julguei com os olhos duas mulheres que trajavam burcas. Imaginava encontrar apenas austríacos altos e loiros, mas me deparei com vários homenzinhos baixos e morenos, alguns ostentando bigodes grossos. Entramos no primeiro mercado que avistamos. Estranhei não encontrar cervejas. Imaginei que poderia haver alguma lei na Áustria sobre não vender bebidas alcoólicas em mercados. 

Voltei minha atenção para as prateleiras. As etiquetas com os preços e nomes das mercadorias não estavam em alemão. Talvez fosse turco. No açougue, um senhor com aparência árabe — pelo menos na minha ignorância estereotipada — ouvia num radinho uma música que lembrava a novela O CloneFoi então que as duas mulheres de burca que havíamos visto na rua entraram no mercado e tive um estalo. Estávamos num bairro muçulmano na Viena de Mozart e dos senhores distintos altos e loiros. Fomos embora apressados e sem comprarmos nada. Afinal, o estereótipo conhecido dos muçulmanos a partir de 2001 é o de que todos são terroristas, não é mesmo?

Ficamos espantados. Na nossa cabeça julgadora e preconceituosa, parecia inconcebível tal mistura étnica num país como a Áustria. No centro de Viena, algo que não poderíamos imaginar: iranianos faziam uma manifestação contra Ahmadinejad.

De certo modo, a manifestação, por mais legítima que seja, estava combatendo ódio com mais ódio. E sempre foi assim. Sempre será. Foi assim com judeus e tutsis, é assim com gays e com qualquer um que seja considerado “diferente”. Mas, o que é ser diferente? Pensar por conta própria? Ter um comportamento que fere os valores morais? Mas, que valores são esses? Tudo bem ser preconceituoso desde que os tais valores morais sejam respeitados?

Os muçulmanos de Viena são pessoas como eu, como você, como seus pares. E, provavelmente, eles devem julgar os brasileiros como devassos. Afinal, somos o país do samba, futebol e mulheres semi-nuas. Nos falta empatia. E quando falo “nos”, me refiro a “nós, seres humanos”. Os mesmos seres que inventaram as fronteiras que servem para separarem países e criarem estereótipos.

O filósofo suíço Alain de Botton certa vez disse que “qualquer um que não se sinta envergonhado por quem ele era no passado, provavelmente não está aprendendo o suficiente”. E ele tem razão. Eu me envergonho. Me envergonho e me policio para não me envergonhar novamente. Esta viagem pela Europa completou 1 ano este mês. Precisei de pouco mais de duas semanas convivendo com diferentes culturas para aprender o que não aprendi em 5 anos no curso de Relações Internacionais.

Empatia não se ensina na faculdade, nem em lugar algum. É preciso conhecer o outro para perceber que estereótipos são apenas rótulos, que o outro é como você, feito de carne e osso,  e que enxerga o mundo com os óculos que lhes foram dados. Cabe a você olhar por debaixo destes óculos.

27 anos, catarinense, escritor, empreendedor, growth hacker, guitarrista frustrado, marido da Laís. Eleito pelo LinkedIn como o terceiro brasileiro mais influente da rede em 2016. Sócio do Crush Design — uma das 100 startups mais inovadoras do estado de Santa Catarina.

  • Meu pai dizia que enquanto apontamos um dedo para alguém, tem três apontados para nós. (Faça o gesto com a mão para ver os três dedos.)

    As diferenças existem e é achar uma ponte que nos ligue 🙂