Era 1994. Há exatos 20 anos, prestes a completar 5 anos de idade, eu não entendia a excitação de todos ao meu redor com a chegada da Copa do Mundo. Apesar da pouca idade na época, tenho alguns flashs. Eu acabara de entrar na escola. Diferente da maioria dos meus coleguinhas, já conhecia as letras do alfabeto e conseguia juntar as sílabas. Como prêmio pela alfabetização precoce, ganhei de meus pais o álbum de figurinhas da Copa daquele ano, nos Estados Unidos. A Copa do tetra. As figurinhas eram coladas com tenaz, diferente das autoadesivas de 1998 pra cá. Eram outros tempos. O álbum aguçou minha curiosidade. Nomes esquisitos de jogadores e  suas cidades natais me introduziram inconscientemente às línguas estrangeiras e a paixão de desbravar novos territórios. Passava horas folheando as páginas com figurinhas mal coladas por uma criança com pouca habilidade motora.

Era 1994. Em fevereiro daquele ano, Mandela se tornara o 1º presidente negro da África do Sul. Dois meses depois, no mesmo continente, o presidente de Ruanda era assassinado num aeroporto por um grupo étnico rival, dando início a um dos maiores genocídios da história. Hutus e tutsis entraram em confronto por causa da cor da pele e a largura do nariz. Parece banal. E é. Na Europa, o sangrento cerco de Sarajevo continuava.

Era 1994. Roberto Baggio perdia o pênalti que nos dava o tetracampeonato mundial. Lembro dos jogos graças à um VHS da Gillete que assisti exaustivamente nos anos seguintes, contando os dias para a Copa de 1998. Além do futebol, minha outra paixão era a F1. Numa tarde de domingo daquele ano, antes da Copa, conheci a morte. Ayrton Senna, meu ídolo e de milhares de brasileiros, nunca mais voltaria a correr. Estava morto. Chorei. Não entendia como, nem porquê. Naquele ano eu ainda choraria com a morte do comediante Mussum. Kurt Cobain e Tom Jobim também nos deixaram, mas eu só entenderia a importância de ambos anos mais tarde.

Era 1994. Enquanto eu ouvia Sandy & Júnior, o grunge tinha seu último suspiro, o punk rock renascia, o britpop estourava e o indie saía do underground. Soundgarden, Alice in Chains, Pearl Jam e o Nirvana, já com status de mito pela morte de Kurt, tocavam exaustivamente nas rádios. O Green Day lançava Dookie, disco que levou o punk de volta ao mainstream. Bad Religion, The Offspring e NOFX acompanhavam o trio verde nessa nova onda. O indie via a cor do sol com Jeff Buckley. Na Inglaterra, Definitely Maybe, do Oasis, abria espaço para o britpop nas paradas de sucesso. No Brasil, os Raimundos misturavam forró com hardcore e lançavam seu primeiro disco.

Era 1994. O real, nossa moeda até hoje, era colocado em circulação e Fernando Henrique Cardoso eleito nosso presidente. Outro Fernando, o Collor de Mello, era julgado e absolvido. A internet começava a ser comercializada no Brasil.

É 2014. 20 anos se passaram. Teremos uma Copa do Mundo. E no Brasil. Queria ser criança para enxergá-la da mesma forma de 1994. Não me preocupar com estádios superfaturados. Falta de instrutura. Desvios de dinheiro público. Queria apenas colecionar o álbum de figurinhas.

É 2014. Parece piada — e de mau gosto —, mas o racismo e a intolerância ainda existem. Essa última não apenas racial ou religiosa —  como no passado — , mas também sexual. É sério. Estamos em 2014 e há deputado que ao invés de estar preocupado com o parágrafo acima, perde o sono quando falam em homossexualismo. E digo mais: é 2014 e há quem comemore os 50 anos do Golpe Militar no Brasil. E se eu falar que se trata do mesmo deputado e seus seguidores?

É 2014. Hoje gosto das bandas que faziam sucesso em 1994, mas me falta tempo para escutá-las. Não tenho mais o tempo livre de 1994. Trabalho. Moro sozinho. Tenho obrigações e responsabilidades. O mundo mudou. Meu mundo mudou. Escrevo isso às pressas, tenho que tomar banho, almoçar e ficar até às 22hrs no trabalho. São 11h15min neste exato momento. Estou atrasado.

É 2014. Um dia será 2024 e esses eventos completarão 30 anos. Mas, nunca mais será 1994. Nunca mais verei o mundo com aqueles olhos. Os olhos de 1994. Era 1994…

28 anos, catarinense, escritor, empreendedor, growth hacker, guitarrista frustrado, marido da Laís. Eleito pelo LinkedIn como o terceiro brasileiro mais influente da rede em 2016.