Na última segunda-feira tive uma grata surpresa enquanto zapeava pelos canais antes de dormir. Na Mostra Internacional de Cinema na Cultura, a curadora apresentava o filme que seria exibido a seguir, o alemão Die Fetten Jahre sind vorbei (Os Edukadores). Não entendo nada de cinema, mas todos os filmes alemães que assisti, até onde lembro, são incríveis. Die Welle (A Onda), Der Untergand (A Queda), Sophie Scholl Die letzten Tage (Uma Mulher Contra Hitler), Der Baader Meinhof Komplex (O Grupo Baader-Meinhof), Das Experiment (A Experiência), Das Leben der anderen (A Vida dos Outros), Lola Renntz (Corra Lola, Corra), Das Boot (O Barco – Inferno no Mar) e, o último que eu havia assistido, Good Bye, Lenin! (Adeus, Lênin!), que por coincidência, conta com o mesmo protagonista de Os Edukadores, o excelente ator alemão de origem espanhola Daniel Brül. Esses filmes tem em comum o fato de serem provocativos, de nos fazerem refletir, bem diferente do atual cinema pastelão hollywoodiano – salvo raras exceções –.

Os Edukadores, do diretor Hans Weingartner, foi lançado em 2004, há exatos 10 anos, mas é incrivelmente atual e, de certa forma, premonitório. Transcreverei a sinopse para vocês entenderem onde quero chegar:

“Jan e Peter são dois jovens que acreditam que podem mudar o mundo. Eles se denominam como “Os Edukadores” –  rebeldes contemporâneos que expressam sua indignação de forma pacífica. Eles invadem mansões, trocam móveis e objetos de lugar e espalham mensagens de protesto. Jule é a namorada de Peter, que está passando por problemas financeiros e, por causa deles, está saindo de seu apartamento alugado. Tempos atrás Jule se envolveu em um acidente de carro, que destruiu o automóvel de um rico empresário. Condenada pela justiça, ela precisa pagar um novo carro no valor de 100 mil euros, o que praticamente faz com que trabalhe apenas para pagar a dívida que possui.”

Entre as mensagens deixadas por Jan e Peter nas mansões dos magnatas, a principal era, em tradução literal, “os dias de fartura estão contados”, que é o título original em alemão, e resume o espírito do filme.

O filme ganha contornos reflexivos quando Jule, na companhia de Jan, é flagrada durante uma invasão por Hardenberg – o mesmo ricaço do acidente de carro –. Com a ajuda de Peter, eles decidem sequestrar o empresário. A partir daí, os diálogos no cativeiro levantam diversas questões que deveriam ser debatidas na sociedade. Mas, alterando o discurso de Jan para a nossa realidade, como transformar zumbis em frente à novela ou ao BBB em células revolucionárias?

O diálogo abaixo, vai de encontro ao texto “Ai, que chique!” – Um ensaio sobre o desapego que publiquei mês passado. Ter, ter, ter. Somos reféns do consumismo. Trabalhamos para viver ou vivemos para trabalharmos?

JAN – Quanto você ganha por ano?
HAR – Mais ou menos 200.000.
JUL – 3.4 milhões. Foi o que li no Tagesspiegel.
PET – É bem mais do que menos.
JAN – Não se sente culpado? Destruindo a vida dela por um carro que é uma mixaria para você? Por quê?
HAR – Realmente. Eu reconheço que devia ter prestado mais atenção nos demais envolvidos. Mas eu estava estressado. Lamento muito.
JUL – Quantas horas por dia você trabalha?
HAR – 13, 14 horas no mínimo.
JUL – O que você faz com tanto dinheiro?
HAR – …
JUL – Você acumula coisas. Coisas grandes e caras. Carrões, mansões, um iate. Tudo para poder dizer: ‘Eu sou um macho alfa’. Não vejo outra razão. Nem tem tempo para curtir o seu iate. A pergunta então é: por que você sempre quer mais?
HAR – Vivemos numa democracia. Não devo explicações sobre os meus bens. Eu paguei por eles.
JAN – Errado. Vivemos em uma ditadura do capital.
HAR – Ora…
JAN – Você roubou tudo o que possui.
HAR – Posso comprar mais coisas do que outras pessoas porque sempre trabalhei mais do que os outros. E tive as ideias certas na hora certa. E, além disso, não sou o único.
JUL – Papo furado.
HAR – Todos têm chances iguais.
JUL – Você daria um ótimo político. No sudeste da Ásia, muita gente trabalha 13, 14 horas por dia, mas não têm mansões. Ganham 30 euros por mês. Aposto que também têm ótimas ideias, mas não podem pagar um ônibus para ir até a cidade vizinha.
HAR – Desculpe por eu não ter nascido na Ásia.
JUL – Mas ainda assim pode tornar suportável a vida por lá. Por que os países do Primeiro Mundo simplesmente não perdoam as dívidas dos países do Terceiro? É só 0,01% do nosso PIB. Por que não fazem isso?
HAR – Porque isso significaria o colapso do sistema financeiro mundial.
JUL – Vocês querem que os pobres continuem pobres. Para poder controlá–los, forçá-los a vender seus produtos por preços ridículos.
HAR – O que você entende disso tudo?
JAN – Exatamente pelo mesmo motivo, você não cancelou a dívida da Jule.
HAR – Isso é absurdo!
JAN – Não. É a regra fundamental do sistema: exaurir todos até o limite, para que não possam sequer pensar em reagir.
HAR – Claro, podemos melhorar muitas coisas. Aumentar a proteção ambiental, os preços pagos aos países produtores, mas o sistema nunca vai mudar.
JAN – Por que não?
HAR – Porque é da natureza humana querer ser melhor do que os demais. Todo grupo logo elege um líder. E a maioria das pessoas só fica feliz quando pode comprar continuamente algo novo.
JAN – “Feliz”? Você acredita mesmo que a maioria das pessoas é feliz, Hardenberg? Ei, olhe em volta. Saia do seu carrão, ande nas ruas. As pessoas parecem ser felizes ou parecem animais assustados? Veja as suas salas de estar. Todas grudadas na TV, ouvindo zumbis chiques falarem sobre uma felicidade que não conhecem há muito tempo. Dirija pela cidade. Verá a imundície, a superpopulação, as massas feito robôs nas escadas rolantes dos shoppings. Ninguém conhece ninguém e todos pensam que estão a apenas um centímetro da felicidade, mas ela é inalcançável, porque vocês a roubaram. Assim é a vida, Hardenberg, e você sabe disso muito bem. Mas eu tenho uma notícia para você, “manager”: a máquina superaqueceu. Somos só os precursores. Sua época está para acabar. Enquanto você surfa na tecnologia, os outros sentem ódio. Como as crianças das favelas vendo filmes de ação americanos. E isso é só o começo. Haverá mais. Mais casos de distúrbios psíquicos, mais serial killers, almas destruídas, violência gratuita. Não é possível sedar todo mundo com game shows e shopping centers. Os anti-depressivos não vão funcionar para sempre. O povo está cansado do seu sistema de merda.
HAR – Admito que há alguma verdade no que você falou, mas eu sou apenas um bode expiatório. Eu jogo o jogo, mas não fui eu que fiz as regras.
PET– Não importa quem inventou as armas, mas sim quem puxa o gatilho. Vou para a cozinha, lavar a louça.
JUL – Você sabe que não é tão simples. E que não pode simplesmente se eximir da responsabilidade.

Percebem a contemporaneidade? Máscaras de Guy Fawkes, Ocuppy Wall Street, Black Blocs, Mídia Ninja, Sininho e protestos recentes na Venezuela e Ucrânia. A propósito, em Kiev, manifestantes ocuparam a mansão do presidente do país – agora ex –, Viktor Yanukovich. Soa familiar?

E por falar em mansão, no Brasil, um outro presidente – o da Rede TV!, Amilcare Dallevo Jr. –, inaugurou a sua. 17800 m² de área construída, a maior casa do país. Sua emissora, no entanto, é acusada de desrespeitar leis trabalhistas e atrasar salários.

Em certa parte do filme, Hardenberg cita uma frase que eu já havia ouvido tempos atrás: “Quem tem menos de 30 anos e não é de esquerda, não tem coração. Quem tem mais de 30 e ainda é de esquerda, não tem cérebro”. Após dizer que na juventude era um revolucionário, como o trio, o empresário completa o raciocínio dizendo: “Acontece devagar, aos poucos. A gente nem nota. Um dia, vendemos o carro velho. Queremos um mais confortável, com ar-condicionado e seguro. Você se casa, constitui família, compra uma casa. Educar os filhos custa caro. Se sentir seguro também. Você se endivida, trabalha para pagar as dívidas e age como os demais. Faz carreira. Até que chega uma eleição e você se dá conta de que o seu voto é conservador”. Alguma semelhança com os ex-guerrilheiros e agora mensaleiros do PT?

Se você leu até aqui, deve assistir o filme. Vale a pena.

28 anos, catarinense, escritor, empreendedor e freelancer em marketing digital. Eleito pelo LinkedIn como o terceiro brasileiro mais influente da rede em 2016. Escreve também no HuffPost e no Transformação Digital.