Tempos atrás li um texto de uma blogueira falando que sente-se constrangida ao contar para alguém, quando perguntada, que comprou tal coisa no exterior. A revelação é sempre retrucada com um “ai, que chique”. Ontem minha namorada disse-me a mesma coisa, sente-se envergonhada quando perguntam sobre uma bolsa que ela comprou na Itália e deve ter custado no máximo uns £20. Mas, por que é chique? Aqui no Brasil as mulheres pagam R$200, R$300, R$400 numa bolsa. Também já passei situação parecida com um óculos que comprei na Alemanha. Paguei £6, na H&M, uma espécie de Renner gringa. Já vi conhecidos pagarem R$1000 num óculos aqui no Brasil. Onde está o glamour nos meus óculos?

O glamour não está no objeto em si, seja a bolsa ou os óculos, está na viagem. Nosso complexo de vira-latas logo julga alguém que viaja ao exterior como rico. Conheço cinco países e estou longe de ser rico. Como? Desapego e planejamento.  Até meus 18 ou 19 anos, era um adolescente como outro qualquer, queria andar sempre com roupas de marca, frequentar as melhores festas, ter um carro, ter o melhor celular. Ter, ter, ter.

O que mudou? Sempre sonhei em viajar o mundo, mas, como a maioria, julgava isso como coisa de rico. Aos poucos, comecei a me desapegar das coisas. Não comprava mais tantas roupas, apenas o que achava necessário. Passei a não ligar para marcas. Deixei de frequentar festas todos os finais de semana. O dinheiro começou a sobrar. Inconscientemente, eu estava poupando. Parte desse desapego deve-se ao livro/filme Into The Wild (Na Natureza Selvagem, no Brasil), que conta a história de Christopher McCandless, um jovem recém-formado em Direito que deixou sua zona de conforto e largou tudo, inclusive uma polpuda poupança (confesso que não tenho coragem de chegar nesse nível), para viajar pelos EUA até chegar ao Alaska, onde se instalaria e viveria em meio a natureza selvagem.

McCandless é um extremo. Você não precisa rasgar todo seu dinheiro e isolar-se do mundo. Mas, voltemos ao ponto de partida, as viagens ao exterior que são consideradas “coisa de rico”. Meu salário não é alto, não tenho carro, moro de aluguel numa kitnet, meu celular foi presente da última empresa que trabalhei e não compro roupas desde abril do ano passado, quando viajei para a Europa (comprei umas camisetas por £3 e uma calça por £10 na Áustria, que chique!). Como consegui ficar quase 1 mês mochilando pela Europa? Além do desapego, planejamento. Planeje sua viagem com antecedência. Procure promoções de passagens e as compre em 10x no cartão (eu fiz isso). Não viaje por agências, você gastará quase o triplo. Fique em hostels e albergues. Use e abuse do transporte público. Estive em Veneza, mas fiquei hospedado em uma cidade vizinha, bem mais barata. Fui até a cidade mais romântica da Itália em um “busão” lotado, em pé. Cadê o glamour? Em Viena, fiquei num bairro muçulmano afastado do centro. E por aí vai.

Esse mochilão foi um verdadeiro exercício de desapego. Aposto que quando contar que eu e minha namorada viajaremos em setembro para os EUA, uma viagem planejada com 1 ano de antecedência, ouvirei um “ai, que chique”.

Acumule experiências de vida e conhecimento ao invés de objetos.

28 anos, catarinense, escritor, empreendedor, growth hacker, guitarrista frustrado, marido da Laís. Eleito pelo LinkedIn como o terceiro brasileiro mais influente da rede em 2016.