Os eventos narrados a seguir aconteceram (ou não) alguns dias antes da viagem para Praga, que comecei a contar no penúltimo post.

08 de abril de 2013.

Era minha primeira noite na pulsante Berlin. Depois de um dia inteiro dirigindo nas autobahns, tudo o que eu queria era relaxar. Tomei um belo banho e peguei um metrô em direção à Potsdamer Platz, que um dia foi separada pelo Muro, e hoje é o coração da cidade. Caminhei até o Sony Center, um complexo de lojas, bares e restaurantes, e entrei num bar chamado Lindrenbräu. Não haviam mesas disponíveis, mas como eu estava sozinho, um pequeno espaço junto ao balcão era o suficiente. Pedi a cerveja da casa e fiquei observando o pessoal a minha volta. Achei ter visto o David Bowie comendo um schnitzel, mas era só um cara – ou uma mulher, não tenho certeza -, que se parecia com ele. No outro canto do balcão, próximo ao banheiro, vi um cara que se parecia com o Alex Turner, dos Arctic Monkeys, tomando uma margarita e mexendo no celular. Espera aí, era o Alex Turner. O próprio. O vocalista da minha banda favorita estava bem ali, a poucos metros de mim, sozinho, se embebedando.

Fiquei pensando em maneiras de me aproximar do Alex sem parecer um fã chato ou algo do tipo. Me dirigi ao banheiro, dei um tempo por lá e na volta o abordei com um “hey, Alex”. Falei que era um grande fã e ele agradeceu, de forma tímida.  Perguntou de onde eu era e em seguida desculpou-se por não ter perguntado meu nome. Lhe disse que era brasileiro e me chamava Matheus, nome em português para “Matthew”, como o baterista de sua banda. Alex disse que então me chamaria de Matt, assim como faz com Helders, o baterista.

— “Coincidentemente, fui a um show dos Arctic Monkeys há exatamente 1 ano, em São Paulo, no Lollapalooza Brasil. Vocês estão em turnê pela Alemanha?”, perguntei.

— “Que coincidência. Foi um show incrível, o público brasileiro é incrível. Não, não. A banda está se preparando para gravar um novo álbum. Estou aqui por uma garota. Que não está aqui, como você pode ver. E você, Matt, o que lhe traz aqui?.”

— “Realmente, foi inesquecível. Ela deve ser especial. Estou fazendo um mochilão pela Europa para buscar inspiração e escrever meu segundo romance.”

— “E é. Seu nome é Arabella. Ela tem uma cabeça anos 70, mas é uma amante moderna. Um escritor? Legal.”

O celular de Alex toca. Era Arabella, retornando uma das suas 17 ligações. Aproveitei para pedir mais uma cerveja.

— Você é minha? Será que eu quero saber? Fale comigo, Arabella. Eu quero ser seu, só seu.” Disse o apaixonado Alex ao celular.

Terminei minha cerveja. Pedi outra. Ele terminou sua ligação e também pediu uma. Eu já estava ficando bêbado. Alex já estava bêbado. Aproveitei nossos estados etílicos para ser inconveniente e perguntar sobre o que conversaram, já que ele parecia inquieto.

— “Arabella perguntou: ‘por que você só me liga quando está chapado?’. O que não é verdade. Não totalmente, eu diria.”

— “Mulheres”. Foi tudo o que o idiota aqui conseguiu dizer. Eu ainda estava em choque por essa conversa estar realmente acontecendo.

Continuamos bebendo e conversando sobre mulheres, como se fossemos velhos amigos. Quanto mais eu bebia, mais surreal tudo parecia.

— “Saia dessa, disse eu.

— “Ela está me enlouquecendo. Tudo o que eu queria agora era estar com Arabella em meus braços, bebendo vinho, sentados em frente uma lareira. Eu quero tudo isso. Isso soa clichê, mas é assim que é o amor.”

— “Você precisa de mais bebida. Há outras garotas lá fora que adorariam estar com você. Lave o rosto, pegue mais uma cerveja e veja o que Berlin tem a oferecer para você.”

— “Matt, você é um cara legal. Farei isso e você irá comigo”.

Ele foi ao banheiro e continuei no meu lugar, tentando processar que o estava acontecendo. De uma hora pra outra, virei conselheiro e amigo de Alex Turner.

— “Uma para a estrada“, disse Alex ao garçom, antes de pagar a conta. A minha e a dele.

Saímos de lá cambaleando. Fomos até o Portão de Brandenburgo, onde alguns turistas bêbados estavam correndo semi-nus, vestindo apenas suas camisas e meias até o joelho. Um deles reconheceu Alex e ficamos um tempo conversando. Eram tchecos, nativos do meu próximo destino. Me deram algumas dicas, como um tal de Beer Tour. Antes desses malucos irem embora, pedi para que tirassem uma foto de nós dois juntos. Momento tiete. Depois provavelmente infringimos alguma lei federal ao esvaziarmos nossas bexigas no Portão. Ele sacou seu celular, pensei que ligaria novamente para Arabella, mas só queria me mostrar uma música do Dr. Dre.

— “Esse é meu hino de festa número 1, Matt. Tenho ouvido muito esses sons loucos ultimamente”.

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Sony Center, Berlin, Germany.

Já eram 3 da manhã e fazia muito frio. Era hora de eu voltar para o albergue, enquanto Alex provavelmente voltaria para algum hotel luxuoso e ligaria mais algumas vezes para Arabella. Nos despedimos. O agradeci pela companhia e ele me agradeceu pelos conselhos. Cada um seguiu seu caminho, para provavelmente nunca mais voltarmos a nos ver. A noite chegou ao fim, assim como nossa amizade relâmpago.

Quatro meses depois, Alex e sua banda lançaram esse clipe. Vou acreditar que foi inspirado na nossa noite em Berlin.

28 anos, catarinense, escritor, empreendedor, growth hacker, guitarrista frustrado, marido da Laís. Eleito pelo LinkedIn como o terceiro brasileiro mais influente da rede em 2016.